sexta-feira, 22 de maio de 2009

O recado da ponte

Todos construímos pontes. Dois Irmãos tem a do Feitoria, pela qual os primeiros imigrantes vinham para o Centro da cidade.
As mais famosas do mundo são a do Brooklin, em Nova Iorque, e a Golden Gate, em San Francisco, Califórnia.
No Rio Grande do Sul se chega e sai por pontes. Como São Tomé-São Borja. E para Santa Catarina é por ponte, como a do rio Pelotas, na divisa de Vacaria-Lages.
As pontes têm símbolo de união. E guerra.
Os gregos calculavam para conhecer astronomia. Os romanos para saber a distância de lançar as flechas e matar os inimigos.
Pais e filhos têm amor natural e desentendimento, e têm de atravessar a ponte do conflito de geração, caminhada sem a qual não há entendimento.
A fé é a ponte entre o mundo e o subjetivo Criador. John Milton, no Paraíso Perdido, narra a teologia clássica e diz que após desviar Adão e Eva, o Diabo construiu uma ponte da Terra ao Inferno, para “facilitar o desvio das almas”.
Quem se atira no vício atravessa a ponte. E para sair dele faz o caminho de volta de joelhos, rastejando.
Se em tese todos nascem sadios, muitos de nós certas vezes cruzam uma ponte que leva à delirante loucura. Uns de lá retornam. Outros nunca mais, como os que acometidos da Síndrome do Andarilho largam família e trabalho e saem a andar pelo mundo falando com entidades psiquiátricas que lhes atazanam a vida.
Do simples Ser ao Ser-Poder, existe uma ponte. Atraente, mas perigosíssima, pois quem a atravessa tende a pensar que “é” o Poder. O sofrimento então é inevitável: é Getúlio Vargas, desfechando tiro no peito; É Jânio Quadros, embriagado na renúncia; É Collor, na fuga pelos fundos antes da deposição; É Yeda, na “via Crusius” que está passando.
Os que (como este jornalista) não são naturais de Dois Irmãos, mas para cá vieram, tiveram de construir essa ponte de relacionamentos. E, feito isso, a vida floresce.
Do amor ao ódio. Da lembrança ao esquecimento. Do entendimento ao desentendimento. Tudo na vida são pontes. Alguns fazem o trabalho duro, batendo as estacas que sustentam as pontes. Outros colocam o piso nela, para permitir a passagem. E outros estendem o tapete no qual se pode (ou não) caminhar. Mas, se caminhar, por favor: vamos limpar os pés, como cortesia aos que vierem depois de nós, na travessia civilizada dessa ponte para o entendimento.
As pontes só podem ser construídas e atravessadas, se em ambos os lados estiverem homens de boa fé. Fé na paz. Ou fé na guerra. Mas, preferencialmente, na paz. Certo?