Alan Caldas
Deveria ser um escândalo isso que saiu na tevê hoje, de alguém da Receita Federal vasculhar, sem autorização, os dados sigilosos de pessoas do PSDB.
Governo usar a instituição para fazer terror político deveria ser considerado escândalo, pois é antiético, imoral e criminoso.
Dever, deveria. Mas me responda:
- Existe escândalo possível no Brasil atual?
Foram tantos sem punição, que ficou banal.
Diante desses maus exemplos de não-punição, na média nós, brasileiros, ficamos moralmente estéreis. E fatos como um governo que administra o Estado usar a Receita para aterrorizar seus desafetos, só consegue escandalizar a poucos de nós.
Grande parte dos brasileiros não sabe o que é “Estado”. Para o cidadão médio, Receita Federal deve ser aquele papel que um doutor dá para você ir ali na farmácia comprar remédio.
E “ética” tem pessoas formadas em universidade e com diploma de doutor que não saberiam definir exatamente o que é.
Esse fato do uso indevido de dados não vira escândalo por outro motivo, também.
É que tem brasileiro esclarecido, que sabe o que é Estado, Receita e ética. Sabe, mas não se importa, pois vive apenas para si e só se preocupa com o seu umbigo, sua casa, seu carro, sua roupa, seus “bens”.
Tem ainda outra parte dos brasileiros que acredita que político é tudo ladrão e corrupto, e governo é um saco de gato onde todos são aproveitadores, cínicos e traidores. E, para estes, quando vem uma denúncia do uso da Receita Federal para vindita política, ele diz:
- Os políticos que se entendam!
Pinto aqui o retrato de um país que, se não for renovado em sua auto-estima coletiva, vai virar uma nação de egoístas, para quem o coletivo só interessa quando nos beneficia diretamente.
Em dias como este, me pergunto:
- Como chegamos ao que somos hoje?
Diante dessa questão, começo a refletir e me dou conta de uma verdade bem simples: Governar é como criar filho: Não basta falar, tem de dar exemplo.
Um exemplo é mais forte do que mil palavras. E nós, brasileiros, somos fruto dos exemplos que os políticos nos deram.
Num ambiente adoecido pela corrupção, as pessoas comuns como eu e, talvez, como você, concluíram equivocadamente que viver é só cuidar do próprio interesse. Então adotamos a Lei de Gerson, levar vantagem em tudo, para nos reger a vida pessoal e coletiva.
Egoístas, passamos a crer que somos independentes da rua, do bairro, da cidade, do Estado, do país e do mundo. E viramos como uma pequena gota, que no meio do oceano se ilude e acredita ser uma imensa e independente ilha.