quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Olha só aquela cortina!!!

Alan Caldas

O estado natural do ser humano é em liberdade? Ou em prisão?
O casamento é maravilhoso.
Já o convívio é quase sempre desastroso.
Não é a toa que “esposa” em espanhol significa algema. E “esposar” (em espanhol) vale para masculino e feminino.
Do casamento vinham filhos. Hoje se aceita união separada. A lei até criou a Guarda Compartilhada, a formação de família “em separado”: pai numa casa, mãe noutra, filho em ambas.
Acabou a “prisão domiciliar”? Não, e ainda continuaremos vivendo sob o mesmo teto, esposo e esposa, “esposados” um ao outro.
Mas volte à pergunta:
- O estado natural do ser humano é em liberdade ou em prisão?
Parece ser em prisão. Quer ver?
Você nasce na família e a ela se submete, respeitando os horários e costumes, a forma de “ser” da família. Um dia, a pessoa dá o grito de independência e vai ao mundo, e por um tempinho vive “a vida dela”.
Mas logo encontra alguém e entrega (bem feliz) a liberdade de viver “a vida dela”.
Os judeus têm um ritual que explica o que se perde ao casar. No dia do casamento, os noivos quebram um cristal, que é algo que nunca mais poderá ser consertado. É o símbolo da liberdade individual que os noivos quebram para assumir a liberdade coletiva (da nova família).
No casamento, mulheres e homens voltam ao “estado de família”, e têm de adaptar a “sua” vida aos horários, costumes, ações e reações da vida “do outro”.
Um preso ao outro. “Esposados!”
Vão dormir e acordar olhando para o outro. Irão ao banheiro e farão xixi olhando o outro. Tomarão café, almoçarão e jantarão olhando o outro. Ouvirão ronco e sentirão chulé, sempre juntos.
Terão de entender as manias do outro. O pacífico vai assimilar a agressividade do outro. O sexualmente lerdo adaptará sua baixa libido à sofreguidão do sexualmente ativo. O tímido se mesclará ao expansivo, o culto ao ignorante. E muitas vezes o bom terá de “compreender” o mau do outro. O são e o doente, o sorridente e o azedo. . . todos misturam-se no casamento.
O casamento é a Lei da Indução: dois corpos ocupando ao mesmo tempo o mesmo lugar no espaço.
Ocorre que muitas vezes a pessoa está nisso só sobrevivendo, está aturando e não gostando. Está lá mas cada vez mais olha a cortina e pensa que atrás dela tem uma janela, e que a janela dá para a calçada, e que a calçada dá para a rua, e a rua é longa e leva para longe. Entretanto, mesmo assim a pessoa fica. E por que ela fica?
Voltamos à pergunta:
- O estado natural do ser humano é em liberdade? Ou será em prisão?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A arte do ser gentil

Alan Caldas

Temos uma geração na rua que se acha no direito de ser mal humorada.
Uma geração para a qual dar bom dia ou boa tarde parece difícil ou desnecessário.
Não se sabe de onde veio a mania de viver num grupo pequeno e mesmo nesse grupo mínimo ainda não estar ok todos os dias com todos os (poucos) que ali estão.
Gentileza no trato com os que vivemos é parte do protocolo da vida. Ou deveria ser.
Sorrir deveria ser parte do protocolo da vida. Deveríamos dizer “bom dia” e perguntar “como foi a noite?” a todos, todos os dias.
Talvez a maléfica televisão tenha criado uma geração que não acredita em gentileza.
Ou talvez tenha sido Hollywood, com seus filmes onde irmãos estão sempre brigando, e onde pai e mãe vivem numa odiosa e constante tensão pré-menstrual. É como mostra o filme Gran Torino, onde os filhos do personagem principal são insuportáveis, têm mulheres insuportáveis e filhos insuportáveis que vivem uma vida de aparência horrorosa e onde, ao redor, no bairro do pai-avô, só moram pessoas detestáveis.
Pode ter sido Hollywood.
Mas pode ter sido os pais, que permitiram que os filhos não tivessem limites e que por lhes dar liberdade total não lhes ensinaram que se cumprimenta os mais velhos, se respeita os mais fracos, e que gentileza, bom humor e convívio fraterno é como um músculo, que se você não o exercitar ele atrofia.
A ciência já disse que existe um gene da delicadeza. E que esse gene precisa ser exercitado para continuar ativo. Ou ele continuará lá, como mais um dos nossos genes, porém inativo, e mais dia menos dia teremos uma sociedade de pessoas que acreditarão ser normal elas serem grosseiras.
Não é a toa que está na rua uma geração com dificuldade imensa de auto-identificação, que não sabe se é homem, mulher, andrógeno ou o quê.
E o pior: temos na rua uma geração que depende dos pais até os 40 anos. Ou mais.
Uma geração que ensimesmou, que se voltou para dentro de si e entende que tudo que não for seu prazer íntimo não tem razão de ser.
Talvez o amor não vá acabar.
Mas o romantismo deu lugar à vulgaridade, e a gentileza deu lugar a grosseria.
As pessoas se acreditam no direito de ser só elas por elas e para elas. Acreditam não ter responsabilidade coletiva (nem com a família).
Assim sendo, dá medo pensar “onde” chegará a geração que vier desta geração que foi desinstruída na arte do ser gentil.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

De volta à brevidade da vida

Alan Caldas

Como se sabe, a morte acaba com a vida do homem. E mesmo assim cremos que é natural.
Veja este trágico exemplo:
Aos 52 anos já perdi pai, tios, primos, primas, avós e amigos. Tudo bem que também morreu um ou outro desafeto, mas não vamos cuspir para cima, certo? Todos morreram.
Na morte alheia, percebe-se a brevidade da vida. Nascemos cheios de limitações físicas, mentais e de expressão. Com mais sorte crescemos e passamos a compreender a vida. E assim que começamos a compreendê-la... morremos.
Morrer é sobrenatural, pois natural é estar vivo. Mas todos parecem concordar que a morte é natural.
Físicos, químicos, médicos, psicólogos e até jornalistas -socooooorro! - afirmam que morrer “é natural”. Dá para entender outros profissionais engolindo essa de que morrer é natural. Mas jornalista digerir isso sem dor de estômago é uma tragédia.
O que houve com a imprensa?
Perdeu a capacidade de se surpreender?
A imprensa já não debocha das “verdades absolutas”. Mas não existe verdade absoluta. E, portanto, não é absolutamente verdadeiro que a morte é natural.
A morte é sobrenatural, mas a imprensa não vê. E se a imprensa não cutucar os cientistas, a vida continuará um mísero átimo no tempo.
A preguiça na ciência é notável: Anos atrás, entrevistei em Manhattan, no Kansas, um acomodado Diretor do Departamento de Biologia da Kansas State University. Perguntei a ele “quanto tempo” levaríamos para fazer clonagem de animal de grande porte. Era 1995, e ele respondeu:
- Talvez em 50 anos. E provavelmente nunca se consiga.
Levamos a noite inteira “batendo boca” e ele alegando que eu era néscio no assunto.
Porém, dois anos depois apareceria a ovelha Dolly, clonadinha da Silva.
Arrisco dizer que em relação a morte existe essa mesma atitude da maioria dos cientistas.
Cabe a nós jornalistas abrir e intensificar esse debate. Não há por que você perder os seus. Ou eles perderem você.
É inaceitável aceitar que a vida chega ao fim só por que é “natural” ela chegar ao fim.
É muito simplista essa aceitação.
A nós, jornalistas, compete desafiar os cientistas e fazê-los encontrar respostas. Tal qual ocorreu com a clonagem, que era “impossível”.
E atenção: Não acreditar na morte como algo “natural” não significa duvidar do Senhor.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Transformar a cidade numa grife

Alan Caldas

Todos que abrem o seu próprio negócio têm a esperança de que ele cresça.
Não que apenas cresça, mas que se torne referência local, estadual, nacional e de preferência mundial. Estão aí Microsoft, Coca Cola, Heineken e tantos outros. Não são marcas, são grifes.
Há pessoas que viram grife.
Na música Frank Sinatra. Na dança Michel Flatley. Shakespeare na literatura. A família Troisgros na culinária mundial. A Ferrari entre os carros. Muhamed Ali no Box. Pelé no futebol.
Algumas cidades também são grifes. Paris é a mais cara de todas. San Francisco. Moscou. E no Brasil, Gramado, que segundo pesquisa é o sonho de consumo de 8 entre 10 noivas.
O Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, também está virando uma grife.
Dois Irmãos pode se tornar uma grife. E Morro Reuter também.
Essas duas cidades (ainda) têm o que é mais necessário: cultura. São reconhecidas por ser “colônia alemã”. Elas também têm uma geografia, que em Dois Irmãos é bonita e em Morro Reuter espetacular. Além disso, entre alemães e quem os conhece, existe uma tradição de pães, cucas e cerveja, além é claro das maravilhosas schmier que se degusta aqui na região.
Apesar disso, não há desenvolvimento desse setor e nossas duas cidades estão se deixando levar pela mesmice da Grande Porto Alegre.
A BR 116 tem de ser a nossa Rota Culinária Alemã, temos de desenvolver um projeto que vislumbre “reconstruir” a beira da BR 116, criando um estilo próprio para Dois Irmãos e outro para Morro Reuter. Os plátanos já estão ali, enfeitando nossas vidas, dando vida à nossa morte visual (que é o que se tem de Novo Hamburgo em diante, até Porto Alegre).
Os prefeitos, os vereadores, nós moradores, todos temos de sonhar alto para essa BR116. Precisamos com urgência fazer um plano que una nossa geografia com a nossa cultura gastro-agrícola e começar a criar um “estilo” para a BR 116 neste trajeto. E daí em diante, fazer de tudo para transformar essa área numa área linda, rara e cara.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Somos todos culpados

Alan Caldas

A BR 116 não é olhada como deveria pela prefeitura. Aliás, a prefeitura apóia a duplicação dela para transformá-la numa via rápida para turistas irem rápido até Gramado.
A Câmara de Vereadores não cuida da BR.
E nós moradores temos de fazer a “mea culpa” e admitir que não cuidamos da BR.
Como cidade, parecemos não entender que melhorando a parte melhoramos o todo, e deixando estragar a parte estragamos o todo.
A 116 tem tudo para ser um parque de negócios. Mas tem de ter um projeto nobre.
Por exemplo: a prefeita de Ivoti, Maria de Lurdes, contratou uma arquiteta japonesa e fez um projeto para instalar na Colônia Japonesa um Jardim Japonês, como o de Buenos Aires. Vai ter carpas, vai ter sinos, vai ter lago e se tornará um ponto turístico que vai recuperar o “ser japonês” ali da Colônia Japonesa.
E o que Dois Irmãos faz com a BR 116?
Nada! Deixamos encherem a estrada de out-door horrorosos e apoiamos o corte dos plátanos (que é o que vai acontecer se essa alucinação da duplicação ocorrer).
Por não olharmos para a BR vamos ver cada vez mais “tendinhas” sem vínculo com a cultura local e que em nada contribuem de construtivo para a história de Dois Irmãos.
O fato é que deveríamos regulamentar as construções na beira da 116.
Deveríamos criar um plano diretor que desse as coordenadas e dissesse quais construções queremos na BR, tamanho e estilo.
Deveríamos padronizar as construções.
Deveríamos fazer com que a BR 116 no trajeto de Dois Irmãos se tornasse uma grife.
Nunca se escuta o prefeito Miguel dizer algo sobre a BR 116. Só apoiando a extinção dos plátanos (que não foi ele quem plantou).
A BR poderia ser o caminho dos doces, compotas, schmias e da tradição culinária alemã de pães e doces. Mas o prefeito Miguel, num ato maluco, tirou o slogan (Doce de Cidade) que tínhamos e trocou esse slogan por nada (que é o que atualmente temos).
Os vereadores perdem tempo debatendo malefício e quase esquecem que a função deles é construir a civilização. E não olham a 116.
E nós moradores não vemos que para que Dois Irmãos continue a cidade maravilhosa da qual nos orgulhamos, temos de dar ideias e fiscalizar a nós e aos Poderes.
* * *
Eu sei. Sou voz solitária gritando no deserto. Mas penso que Dois Irmãos deve fazer tudo para não se transformar em (mais um) bairro pobre (e feio) da “Grande Novo Hamburgo”.

Uma bela notícia!

Alan Caldas

O calor intenso tem afetado mais as mulheres que os homens. É o que lê-se na notícia de ontem, no Jornal Dois Irmãos, que informou que no Posto de Saúde local estão chegando mais mulheres se sentindo mal que homens.
É estranho isso, porque a mulher sempre pareceu mais forte que o homem.
É a mulher que leva consigo o feto durante nove meses. É ela que sente as contrações e dilatação no parto que dá à luz um novo ser. É ela que o amamenta. E no mais das vezes (atualmente) é ela que o sustenta. Se a criança adoece é a mulher que se levanta à noite. E se tiver de levar na fila do posto de saúde, é ela quem estará lá, madrugando se preciso, para pegar a ficha. É a mãe que coloca a sua mão sobre a nossa dor e a cura. É ela quem põe a criança para dormir. É ela que a ensina (na prática) a falar, andar, escovar dentes, respeitar os mais velhos e mais fracos, não dizer palavrão, se portar como “ser humano” (e não como porquinho) à mesa. É a mulher que se preocupa com a educação da criança, é ela que leva filhos e filhas no primeiro dia de escola. E, antes disso, é ela quem está na porta da (antiga) creche (hoje centro de educação infantil), bem como nas reuniões de “pais” (onde quase sempre só ela comparece). É a mulher que faz das tripas coração para fazer a renda familiar “durar” o mês inteiro. É ela quem transmite a cultura do que foi a família, lembrando aos filhos e filhas os nomes dos avós, bisavós, tataravós, tetratataravós e toda a relação genética que geração após geração foram unindo-se para que a criança viesse ao mundo. É a mulher que se preocupa com uma espiritualidade para a criança e poucos lembram do pai lhes ensinando a rezar o Pai Nosso, pois normalmente quem faz isso é a mãe. Quando você tem febre é a mãe que pula na frente, já meio desesperada. Quando atravessa a rua lá está ela, aos gritos, “Olha o carro! Olha o carro!”. Se você vai para a escola: “cuidado com as companhias”. Se você namora: “será que é uma boa moça, meu filho?” Se você casa: “faça de tudo para dar certo, querido, de tudo”. Se você vira pai: “faça melhor com ele do que eu fiz com você”, diz ela, com lágrimas nos olhos.
Então a mulher é uma fortaleza.
É um prédio gigante,.
Toda mulher é um planeta de força e respeito, de ética, moral, espiritualidade e solidariedade. É assim que aprendi a ver as mulheres. E ao ler no JDI que elas suportam o calor bem menos que nós, homens, é um susto mas é também um alento, pois significa que as mulheres, por mais que não pareça, são humanas. E isso é uma bela notícia. Uma bela notícia...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Muitos e nenhum

Alan Caldas

Quem são os candidatos a deputado por Dois Irmãos?
O Mauro Rosso afirmou que vai a deputado estadual.
Marcel van Hattem diz que vai concorrer a deputado estadual.
Falam que Renato Dexheimer gostaria de concorrer a deputado estadual.
Então Dois Irmãos teria até o momento três candidatos a estadual “da casa”.
Mas existe o Fixinha, que já é deputado e tem grande eleitorado aqui.
Assim temos quatro candidatos a deputado estadual. Se dividirmos nossos 20 mil votos entre eles, cada um faria 5 mil votos.
É um começo. Mas mesmo com esse bom começo nenhum se elege só por aqui. E mesmo que todos votássemos num deles apenas, ainda assim não se elegeria só com os votos daqui.
Mas não é só esse o problema.
Na última eleição mais de 100 candidatos a deputado fizeram voto em Dois Irmãos. Eram candidatos de Santa Rosa, Erechim, Rio Grande, Vacaria, Torres...
A explicação é simples: de todas as latitudes do Estado vieram famílias para cá. E com elas veio sua história e seu título, e veio na mente delas aqueles nos quais elas acreditavam quando moravam “lá fora”. E mesmo morando aqui, elas votam nos “lá de fora”.
Daí que cada candidato, seja de onde for, “belisca” votos aqui.
Assim, quem imagina fazer 5 mil votos, se prepare para mil.
Também haverá candidatos a deputado federal. Dois despontam em Dois Irmãos como “locais”: Ademir Schneider e Renato Molling.
Ambos sonham fazer aqui uma votação arrasadora, mas tal qual para deputado estadual, os candidatos a federal “de fora” beliscarão aqui como lambaris de sanga. E serão tantos que os votos vão se pulverizar.
Além disso, outros da região virão para cá como se daqui fossem. É o caso de Ronaldo Zulke, Giovani Feltes e Jair Foscarini.
O risco de ter tantos candidatos é nós não ficarmos focados nos nossos e não eleger um deles. O ideal seria ter alguém daqui ou muito ligado aqui lá na Assembléia Legislativa e na Câmara Federal. Mas isso só aconteceria se nós nos uníssemos.
Mas isso vai acontecer? É pena, mas não!
Os “nossos” (que espera-se sejam eleitos) terão de fazer força muito maior do que teriam de fazer se nós, ao invés de olharmos para fora, olhássemos para dentro.
* * *
EM TEMPO
Dizem que Deus escondeu a felicidade dentro do homem, porque ali é “o último lugar em que ele irá procurar a felicidade”.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Como era a tevê dez anos atrás?

Alan Caldas

Olhando a Zero Hora do ano 2000 e vendo os programas da tevê leva-se um susto. Dez anos atrás não existiam “reality shows”, os BiguiBróda.
Hoje a tevê não-paga se atirou na fórmula das tevês por satélite. A “xeretação” começou com o BiguiBróda e Casa dos Artistas.
O dinheiro tilintou e as tevês aceleraram intriga, erotismo (ou sexo “sob edredons”), brigas, traições, as gangues rivais que liquidam uma a outra e, depois, um ao outro, na guerra do “resta um”.
E xeretação, traição, descaramento e farsa tomaram conta da tevê em 10 anos.
Depois vieram outros: Esquadrão da Moda, Dez Anos mais Jovem, Super Nanny, O Aprendiz, Simple Life, Ídolos, Troca de Família, etc...
Dez anos atrás tinha lixo e falsidade, mas havia preocupação com ética, moral e educação.
Se a tevê é intromissão direta na vida alheia, isso vem para as ruas, para a vida “normal”. Mas fica a dúvida: como mudou “tanto” em tão pouco tempo?
É a dinâmica social. Somos seres que nos moldamos ao modelo dado. Não somos galinha, que nasce e morre galinha, ou cão, gato, peixe ou cobra.
Humanos não têm “natureza” humana. Nada em nós é “naturalmente humano”. Somos o modelo que nos dão.
O homem na caverna dar porretada na mulher para “namorar” com ela era “natural”? Claro que não. Era só o “modelo” que deram a ele.
Daí o sucesso dos “reality shows”: É um modelo dado que, por conter elementos caros ao ser humano (sexo, informação e parcerias), dá índices altos de audiência, na casa, na fazenda ou na ilha.
O “embaixo do edredon” é nossa lembrança do pai e mãe sob as cobertas. E a dúvida: O que faziam?
O ser humano gosta de “espiar” porque passa a vida atrás de um modelo de “como ser” humano.
Na verdade, não sabemos o que é nem como é ser humano. Mas a tevê sabe, e por isso ela virou esse laboratório onde analisamos cobaias humanas. E a audiência tem a ver com espelho, com “se ver” e “se comparar”.
Além disso, tem (no BiguiBróda) um Bial besta linchando moralmente um ou outro. E o povo adora. Tem mulheres lindas. Rapazes fortes. Tem homo, pobre, rico, culto e ignorante. E o povo ama se ver refletido. É um espelho.
Mas do ano 2000 para hoje mudou a “casa” dos apresentadores.
Em 2000, Ana Maria Braga era Record, tal qual Boris Casoy.
Jô Soares era SBT, como Eliana, Serginho Groisman e os Simpsons.
Ana Paula Padrão era Globo e Raul Gil Record. Já Marilia Gabriela estava no SBT.
E os horários? O Galpão Crioulo era sábado à tarde. Xuxa domingo à tarde. A Praça é Nossa nos fazia chorar (de lembranças) no sábado e Zorra Total (de raiva) nas quintas.
Mudou a tevê e o público. Hoje o alvo é o bolso da recém-consumidora Classe C.
Lendo a ZH do ano 2000 vê-se que não havia tevê digital. E que ainda existia a TV Guaíba (báh... que saudade!)
Não havia a Rede TV, a Pampa reproduzia a Record e não podíamos ver as gostosas (ops, desculpe!) Pampacats rebolando avantajados bumbuns no virar da meia-noite. Pelo menos isso melhorou...

O Banheiro do Papa

Alan Caldas

Por indicação da amiga Alice Meirelles, assisti o filme “O Banheiro do Papa”.
Esse filme foi filmado ali na cidade de Melo, no Uruguai, 50 quilômetros depois do Chuí, a fronteira entre Brasil e Uruguai.
Em 8 de maio de 1998, por incrível que pareça, o Papa João Paulo II foi a Melo.
Quase não dava para acreditar.
O Papa em Melo, uma cidadezinha do tamanho de Dois Irmãos e perdida no meio dos campos orientais do Uruguai.
O que o Papa foi fazer lá?
Ninguém sabe. A Santa Sé tem muitas “correntes teológicas”, tem até umas mais fanáticas e tem as mais (digamos assim) “mágicas”. A grandona é a Opus Dei, fundada por dom Josemaria Escrivá. Mas tem outras correntes fundamentalistas correndo pela Catedral e nas ante-salas do papado.
Por essas correntes todas, a maioria delas poderosa e silenciosa, é bem possível que Sua Santidade tenha ido até Melo, que é no meio do nada, cumprir algum ritual que ficou na obscuridade. Mas o Papa foi.
Foi. E daí?
Ocorre que Mello tem muita gente pobre, bem simples, e a história desse filme O Banheiro do Papa se baseia nessas pessoas.
É gente que, para sobreviver, vai e volta de bicicleta ou a pé ao Chuí comprar produtos (mais) baratos no Free Shop e revender na sua cidade. E essas pessoas enxergaram na visita do Papa uma chance de ficarem ricas.
A imprensa uruguaia informou (sabe-se lá com base em que) que milhares de pessoas “iriam até Melo para ver o Papa”.
“Inclusive excursões brasileiras virão”, dizia a imprensa uruguaia.
As pessoas, então, viram na visita do papa a chance de encher o bolso. E começaram a se preparar para vender roupas, rendas, souvenirs, panchos, espetinhos, refrigerantes e tudo mais para aquele povaréu de fiéis que iria a Melo.
Um desses do povo, pensando no que ele podia fazer para ganhar dinheiro, resolveu fazer um banheiro e alugar para as milhares de pessoas que iriam até Mello.
A história do filme envolve todos e sua esperança de enriquecer com a visita do Sumo Pontífice, mas baseia-se especificamente na história desse um que vai construir o banheiro. Por isso o filme chama “O Banheiro do Papa”.
O filme está para locação na K&K Vídeo, é só ir lá e falar com a Nice ou Andréia.
É um filme incrível, criado e rodado aqui nos vizinhos uruguaios, que até treinaram como atores os próprios moradores de Melo.
A história é sensacional, e tem um final surpreendente.
Assista. Você não vai se arrepender.

Será que Morro Reuter quer?

Alan Caldas

Dois Irmãos não tem um projeto que a torne reconhecida.
O Natal dos Anjos poderia ser. Mas o show do Papas da Língua no ano apssado mostrou que o “Natal” será nos próximos anos só mais um evento de massa e hipnótico, e não mais o sofisticado e espiritual Natal que se tentou fazer. Então, como turismo ele acabou.
A Rota Colonial Baumschneis foi visitada, anos atrás, por 150 agentes de viagem do Rio Grande do Sul. E o Cláudio Candiota, presidente da Associação de Agentes de Viagem, disse que de toda a Rota Romântica (que vai de São Leopoldo a São Francisco de Paula) a única “rota” que tinha “alguma chance de turismo” era a Rota Colonial Baumschneis.
No entanto, nunca foi feito algo para ancorar a Rota Colonial, e ela ficou no que é e nada indica que vai deslanchar.
O Kerb? O Kerb virou festa de bêbado. E por mais que ano após ano, prefeito após prefeito se insista em colocar cultura no Kerb e o levar de volta às origens (única chance de fazê-lo ser turístico), ninguém escuta esses conselhos. E ano a ano o Kerb se torna cada vez mais um culto ao álcool e “às massas”.
E não se faz turismo com “massas” ou vício. Então, o Kerb é zero turismo.
Talvez Dois Irmão não queira ser turística. Talvez sejamos uma cidade industrial, o oposto de ser turística.
Assim sendo, cabe a Morro Reuter ser a cidade turismo na Grande Porto Alegre. Mas para crescer nesse aspecto, Morro Reuter terá de olhar para trás e viver hoje o seu passado.
Há um desejo enorme de turismo rural e “de história” (do passado) na Grande Porto Alegre. As pessoas estão loucas por vivenciar por algumas horas ou dias um lugar antigo, bem colonial e de preferência “com outra língua”.
Gramado há muito não é assim. Gramado é a metrópole do turismo, é gente bonita e bem vestida, carros caros, comida de alta qualidade, ruas impecáveis, mais de 200 hotéis, mais de 200 restaurantes, cinema, Pubs, e um projeto de manter os olhos das pessoas voltadas para ela.
Até o termômetro de Gramado dizem ser “manipulado” e mostrar temperatura abaixo da real. Gramado está muito além do turismo romântico e rural. Romântica ela é, mas não é rural e nunca mais será.
Mas as pessoas estão querendo esse convívio com o natural. E estando Morro Reuter a sessenta quilômetros da capital, se ela mostrar sua face antiga de colônia e seu som de língua alemã, certamente se tornará um sucesso.
Mas resta responder a pergunta:
- Será que o povo de Morro Reuter quer?