Alan Caldas
Numa tarde de setembro de 1975 eu vinha de carona de Vacaria para Caxias do Sul, pela BR 116. Na descida da serra do Rio das Antas, entre Vacaria e São Marcos, dobramos uma curva fechada e bem na frente vimos um Fusca batido de frente num caminhão.
O acidente havia ocorrido segundos antes, e corremos para socorrer os acidentados.
No Fusca havia dois senhores de meia idade. Ambos com muito sangue, mas vivos.
Perguntei se conseguiam me entender. Conseguiam. Perguntei se conseguiam se mover. Conseguiam.
Ajudamos eles a sair do Fusca, com muito jeito, e colocamos os dois no banco de trás do Opala. Ligamos o pisca alerta e as luzes, e saímos embalados na direção de São Marcos.
Eu fui no banco de trás, junto com os dois senhores. Os dois sangravam bastante, e eu, que era um guri, tinha de ir acalmando eles. Disse que estava tudo bem, que nós estávamos com eles, que aquele sangue era só superficial.
Um deles estava com a mão toda amassada, eu me lembro, e havia perdido um dos olhos no acidente. Havia um buraco com sangue, onde antes havia um olho. Ele chegou a dizer que achava que tinha perdido o olho mas eu não podia dizer isso, pois ia assustá-lo mais.
“Não perdeu”, eu disse, “é que tem muito sangue aí e por isso o senhor não enxerga, mas fique calmo que já vamos chegar no hospital”.
O Opala, dirigido pelo Paulo Marques, voava baixo na BR 116.
Um deles disse que estava “perdendo os sentidos”. Pensei que ia morrer, e sem saber o que fazer, peguei a mão dele e segurei firme.
- Fique acordado! Não se deixe desmaiar!
Ele reagiu.
Ambos diziam o tempo todo “Perdão, Senhor! Perdão, Senhor!” e eu tentava falar com eles, dizendo que foi um acidente e que o homem do caminhão não sofrera nada.
Então chegamos em São Marcos.
Entregamos os dois no hospital e fomos embora. Mas, antes de sair, já os dois deitados nas macas, um deles me pediu:
- Avise a Diocese de Caxias que o padre Bizzi e o padre Petroni se acidentaram.
Hoje, 35 anos depois, também numa tarde de setembro, tive a chance de ajudar a socorrer a dona Maria Lúcia Schuck. E pude repetir o tratamento atencioso que se deve ter com quem, estando acidentado, precisa de alguém que lhe segure a mão e dê confiança. Não sei a extensão dos ferimentos da dona Maria Lúcia. Ela também sangrava muito, mas espero que seja leve.
De qualquer forma, hoje pude constatar que tanto naquele distante 1975 quando neste atual 2010, o que importa num momento desses é não ter medo de chegar perto do acidentado. E, sobretudo, tem de ter carinho e respeito para pegar na mão da pessoa acidentada e dizer que ela fique calma, pois não está só.