terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Tem uma conta que não fecha

Alan Caldas

editor

Final de ano é fazer as contas. Dívidas. E cré­ditos. É para contar desamores. E amores. Contar sorriso do filho e lençóis e bate-boca com a patroa. Contar reformas no carro e na casa, ah, e na bicicleta que (finalmente!!!) consertamos.

Nem toda conta é tragédia. Conte a música que ouviu e lembrou de quem já lhe foi tão cara.

É bom contar os dias finais do ano passado. E cruze os dedos para que os deste sejam mais fantásticos de coisas boas e péssimos de fatos ruins.

As contas financeiras? Ai, ai, ai.... não acabam. Roupa para réveillon, espumante para tim-tim, comida para a ceia. E viagem.

E os amigos? Os que não foram financeiramente bem, apostam que você dará uma contribuição para que eles, coitadinhos, possam mergulhar em champagne e brindar o ano novo. Afinal, você é amigo ou inimigo? Então, contribua com os carentes, pô! E não cuspa para cima, pois um dia VOCÊ é que poderá precisar deles, então uma mão lava outra, as duas lavam o rosto e ou você os ajuda agora ou eles um dia não ajudarão você. Certo?

As contas da família são de chorar. E as piores são as contas morais. A mãe dizer “este ano você ligou só seis vezes pra mim”. O filho lembrar que esqueceu ele na creche. A filha flautear que prometeu levar ela e não levou.

E a fé? Fé só existe se for cega. Mas não é fácil ver o semblante amigo do padre lembrar dízimos que não colaboramos e missas (ah meu Deus!) que não assistimos.

As contas do trabalho são doloriiiiidas. Para quem é patrão é a época de pagar o pato: 13º, 14º, férias, licença disso, imposto daquilo. Já quem é empregado, o que ganha nunca dá para tudo que pedem. Patrão e empregado são dois lados, mas uma só moeda.

Contas boas de fazer são as dos sorrisos. Amizades que fizemos e refizemos.

Pessoalmente, contabilizo neste ano maneiras novas de ver as velhas coisas de sempre. É que me enchi de humildade e contabilizei acordos dignos que transformaram em amigos antigos adversários que pude sinceramente passar a admirar. Entre estes, estão um ou dois da política, e que agora passo a admirar e respeitar. Isso melhora qualquer ano ruim.

Por fim, sou obrigado a dizer que este ano mais uma vez ficará no contas a pagar aquela continha sexual. E é capaz de que quem é credor nisso vá ter de colocar esse crédito no “fundo perdido”. E não é que não queira botar esse balanço sexual em dia. É que certas “dívidas”, mesmo você querendo pagar, não consegue. E isso, neste final de ano é a coisa que mais me dói. Ai, como dói...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A gota de urina que faltava

Alan Caldas

Um brasileiro, serralheiro, 28 anos e natural de Rondônia, foi morto a facadas na cidade de Caldas da Imperatriz, em Portugal. A esposa disse que ele urinou na rua. Ao ser repreendido, reagiu e foi morto. A polícia acredita em xenofobia, o ódio contra os estrangeiros.

Fiquei chocado! Quem matou voltou a primitiva justiça pelas próprias mãos. Quem morreu voltou ao primitivo de fazer necessidades fisiológicas na rua.

Não recordo de 40 anos atrás alguém urinar à vista de todos. Até recordo, mas não pessoas. Lembro cães urinando. Macaco. Leão urinando na jaula sem dar a mínima a quem o via.

Lembro seres brutos (que é o oposto de inteligente) urinando ao bel prazer. Não lembro de seres inteligentes e com noção de civilização, urinando sem se importar com quem os vê.

A princípio urinar é ato natural. A bexiga enche e você esvazia. Entretanto, os humanos resolveram civilizar a raça. Estabelecer cultura. Cristalizar comportamentos. E um deles foi “esconder as vergonhas”.

Não é de hoje. Quando Cabral chegou aqui, escreveu ao rei que os nativos “não escondiam suas vergonhas”, andavam pelados, coisa que 500 anos atrás já era “medonho” para os portugueses civilizados. Se o serralheiro tivesse lido a Carta de Pero Vaz de Caminha talvez ainda estivesse vivo.

É fato que nos últimos 200 mil anos o ser humano tenta conter instintos. Constrói casa e sai da caverna, onde o odor de urina era terrível. Usa roupas. E cria lugar para fezes e urina.

Em nome de civilizar a raça, se estabeleceu que a tua mulher não é obrigada a ver o pênis do vizinho só porque ele acredita poder urinar em qualquer lugar a hora que tiver vontade.

Civilização é não se fazer tudo que se quer. Civilização é ter hora e lugar para tudo, para urinar e para matar, e quando um falha e o outro falha, voltamos ao primitivo dos instintos.

Nós, brasileiros (vamos lavar a roupa suja em casa), perdemos a noção de respeito a três coisas:

- Ao olhar do próximo,

- Ao ouvido do próximo e

- Ao comportamento social do próximo.

Por isso, alguns (normalmente os piores de nós) urinam à vista de todos, fazem barulho no ouvido de todos e se mostram grosseiros e primitivos onde quer que estejam.

O comportamento não-civilizado dos imigrantes gera o ódio dos europeus contra os que tentam fazer da Europa o dejeto cultural que fizeram de seus países.

Civilização quer dizer que em Roma se faz como os romanos. E, às vezes, uma gota de urina basta para derramar o copo inteiro da civilização. E o que sobra para todos nós é sofrimento.

Os dias de farra estão contados

Alan Caldas

Logo o luxo vai ser feio e mal visto.

Quando isso chegar, carrões, mansões, vida nababesca, aviões particulares, praias privadas, condomínios com luxo saindo por cima dos muros protegidos por cercas elétricas, tudo será motivo de ira. De raiva. De ódio.

O luxo de uns poucos, em contraposição a miséria de bilhões, vai gerar um mal-estar violento (e de violência) na cultura do ter.

Bilhões de miseráveis se enxergando na réstia de alguns milhões de abastados, será o estopim que ligará o ódio aos que usam luxo. Aos que exaltam o que têm. Aos que não vivem na simplicidade.

Não será rápido. Mas o rancor contra os que têm vem sendo construído nos cinco continentes. Quando negros derrubaram o Apartheid na África se viu isso. A vitória de Dilma também diz isso. A vitória dos Kirschner na Argentina, de Chaves na Venezuela, de Evo Morales na Bolívia, de Miterrand em França, de Tatcher na Inglaterra e a retumbante vitória do negro Obama nos Estados Unidos. O mundo está escolhendo o mais simples. Todos esses eram os mais simples entre os que disputavam o cargo que eles ganharam. E eles ganharam porque se alinhavam com o simples. Não com o simplório. Com o simples. Não se confunda: o simples não é o simplório, o simples só é o não-luxuoso. Para o simples, o luxo é a utilização desregrada do necessário. E o uso desregrado do necessário gera um sofrimento de massas. E é isso que fará o luxo ser condenado, dentro em breve.

Joãozinho Trinta disse que quem gosta de miséria é intelectual, pois pobre gosta é de luxo. E é verdade. Mas também é verdade que não há nada que oprima mais o pobre do que o luxo dos luxuosos.

Isso fica bem claro quando se vê um miserável torcer pelo salário milionário de Ronaldinho. Ou um miserável torcer para Portalupi ganhar 400 mil por mês enquanto ele, torcedor, vive de mal a pior.

Um dia fumar era natural e hoje é vergonhoso. Um dia a mãe nos mandava comer para ficar gordo, e hoje está ficando feio ser gordo. A consciência está mudando. E quando na média as pessoas souberem como está o planeta e perceberem que 15% da população mundial vive bem e 85% na miséria, vai começar outra luta de classes. Não para derrubar a classe rica, mas para emparelhar senão a alegria, pelo menos o sofrimento. Quando a média perceber que no planeta 800 milhões vivem bem e 6 bilhões vivem na penúria, o luxo vai ser castigado e visto como malefício coletivo.

Portanto, baby, aproveite.

Os dias de farra estão contados.

É fácil mas é complicado

Alan Caldas

Ana Maria sempre dizia que amar era simples. Mas ela mesma admitia que aprender a amar não é fácil.

Ela cresceu, um namoradinho ou outro, sempre dizendo que “amar é simples”. Até que chegou a um amor, como ela disse, “dos sérios, dos bons”. E se casou.

O Alfredo era tudo de bom. Um pouco mais velho que ela, um cidadão seguro, bem posicionado na cidade, essas coisas que sogra adora. E a mãe da Aninha, vaidosa do genro, floreava a gaita enchendo o Alfredo de elogios.

O amor crescia. A barriga da Ana Maria também. E veio o primeiro filho, o Joãozinho, que foi seguido do segundo, uma linda menina, a Clara. A casa encheu e isso foi a alegria dos avós, porque sogra e sogro se derretem para os netos.

O amor “simples” do qual a Ana falava já não se tornara tão simples. Com dois filhos o tempo é muito curto. E na hora “boa” alguém chora, quer titi, está com medo, tem febre, quer água... coisas de criança.

Com duas crianças é difícil ficar bonitona. O máximo que dá é ficar limpa. E o amor “simples”, sem tudo aquilo de palavras lindas, de sexo ardente, sem presentinho, sem comidinha e sem intimidades se torna uma companhia, um vira comparsa do outro, tipo irmãos, amigos de cama, essas coisas.

Ambos cada vez mais próximos dos problemas dos filhos e mais distantes de cada um deles, a vida seguiu monótona e fria.

Um dia a Ana Maria acordou e estava só. O Alfredo se foi. Desistiu, o Alfredo, e numa atitude bem covarde meteu o pé na estrada para nunca mais voltar.

Sozinha, a Ana Maria segurou. Não sem as idiotas frases de “eu avisei” e as palavras das “amigas”, dizendo “ele sempre foi canalha”.

O Joãozinho e a Clara cresceram.

Um dia, já sem o João que foi morar longe e sem a Clarinha que acabara de ir morar com o namorado, a Ana Maria foi para a frente do espelho. Era a primeira vez em quase 20 anos, e olhando para si mesma ela decidiu arrumar um namorado, voltar a beijar, ter vida íntima, a viver como mulher não apenas como mãe.

Bonita e elegante, logo encontrou namorado. O primeiro de tantos que ela passou nos quatro anos que se seguiram.

O sexo voltou. Passeios voltaram. O se arrumar voltou. Mas o amor não havia voltado, quando a encontrei, dias atrás, em Porto Alegre.

- Mas você dizia que amar é simples.

- Pois é. Mas aprender a amar é complicado, saber pegar na mão, andar de braço, ficar de beijinhos, dizer te amo, ser feliz... é complicado.

- Mas porque, mulher?

- Ah, Alan... na minha idade parece ridículo...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

E a vida? Diga lá meu irmão...

Alan Caldas

A vida é curta e ainda gasto ela com bobagem. Nasci. Cresci. E estou aqui 53 anos!

53? Cruz-credo! A média de vida é 70 anos. Me sobram 17 anos então? É, só 17 anos. É. Só 17. E depois desses próximos 17, uma passadinha ali no LuÍs Schaumloeffel, a benção da irmã Beatriz, uma ou outra lágrima em frente ao caixão e lá vou eu cova Adentro. Da terra à terra. Do pó ao pó. E pulo no Grande Vazio.

Me aguarda o Céu? Talvez!

Me aguarda o Inferno? Talvez!

Me aguarda o nada? Talvez!

100% certo mesmo é que nunca mais escreverei esta coluna.

A vida é curta. Mas o que fazer dela?

Nascemos parvos. Gatinhamos. Andamos. Estudamos. Trabalhamos. Casamos. Descasamos. E vamos nos incomodando dia a dia com família, com vizinhos, patrões, empregados, políticos, ladrões, com os que têm mais, com os que têm menos, com os mais sábios, com os mais ignorantes.

Levamos uma vida de pequenas amarguras e pequenas alegrias.

De grande, mesmo, nada fazemos.

É que não sabemos o que fazer nesse curto espaço chamado vida.

Viajamos pouco. Beijamos pouco. Sorrimos poucos. Fingimos barbaridade. Nos fazemos. E levamos vida medíocre sem viver intensamente cada segundo do nosso tempo. E morremos. E somos esquecidos, como todos que, em vida nos antecederam neste teatro do viver.

As leis. As regras morais. Os medos. Tudo nos atrapalha. O medo então, bah, é o que mais nos atrapalha.

Nos pelamos de medo de coisas que jamais nos acontecerão. E seguimos sem amar, sem grandificar a nós próprios, sem deixar no mundo uma marca que faça esse mundo se aboquiabertar diante de quem fomos durante nosso tempo de vida.

O medo nos impede de nos agigantar.

Tememos perder o que nunca tivemos. Nos confundimos com migalhas que conquistamos e, temendo perdê-las, nos acovardamos.

Ser humano é ter medo. É se reduzir. É ficar atrás da árvore espiando a morte se aproximar.

Por não saber o que fazer com o espaço-tempo de vida, levamos vida miserável correndo atrás de dinheirinho, empreguinho, casinha, carrinho e nem temos fé, temos fezinha, a fé cega, a que remove montanhas, nos falta.

E assim um dia, sem mais nem menos, morremos. E ninguém sente nossa falta. Assim como não sentimos a dos que partiram antes de nós.

E é por isso que a única inteligência da vida é continuar vivo. Mesmo que vivendo miseravelmente. Por que você sabe: a morte acaba com a vida do homem.

Beatles, a síntese da nossa esperança

Alan Caldas

Paul McCartney dizendo “Boa noite Porto Alegre” pegou de surpresa 50 mil pessoas no estádio Beira Rio. “Ele fala português”, disse uma moça do lado. E sua mãe, uma jovem senhora de 50 anos, rebateu:

- Claro, minha filha. Beatles falam a língua do mundo.

A música dos Beatles começou o diálogo internacional. Começou a aldeia Global de hoje. E Liverpool, a pequena cidade da Inglaterra, conseguiu com seus quatro jovens conquistar o mundo. Conquista, me arrisco a dizer, igualável a dos portuguesa, 500 anos antes, com as descobertas marítimas.

É quase impossível alguém dizer que “não gosta” de Beatles. Eles mudaram o modo de ouvir da humanidade. Não foram os primeiros. O mundo teve várias divisões entre antes e depois. A mais importante foi Jesus Cristo, criando AC e DC. Depois os navegadores portugueses, que com naus precárias e gigantesca coragem atravessaram o Bojedor, foram além da dor e descobriram “novos mundos”, derrubando a teoria da terra plana.

Beatles tiveram a mesma importância nos costumes. Suas músicas, a batida no violão, guitarra, contrabaixo e bateria, os acordes, as baladas, tudo musicalmente subiu um degrau e o mundo culturalmente se modificou.

Eram rapazes comportados, os Beatles. Filhos de boa família que cantavam músicas delicadas e amáveis.

Aliás, quem viu Paul McCartney ontem cumprimentar todo mundo, ser gentil com motoristas, garçons e porteiros dar a mão e dizer “muito obrigado” a todos que o encontravam, viu de certa forma o mundo que vivíamos nos anos 60. Viu um mundo de pessoas carinhosas e amorosas, pois assim éramos nós, de quem os Beatles ergueram-se como uma síntese.

Os Beatles desacomodaram nosso mundo com música, cabelos, alegria e sons diferentes do cinza cultural de então.

Beatles vieram e passaram. Como tudo. Mas ainda hoje, se escutamos um contrabaixo soar acordes de Beatles, um jorro de alegria e esperança borbulha sorrisos dentro de nós. E foi o que se viu domingo: um jorro de esperança.

Sabemos que é o passado de 45 anos atrás.

Sabemos que Paul está velhinho.

Sabemos que o anti-amor matou Lenon.

Sabemos que a música evoluiu e a batida que se ouviu domingo não é mais a batida que o mundo aceita e quer.

Tudo bem. Sabemos tudo isso. Mas pô: é uma batida legal, não é? É uma batida sem depressão. É uma batida que não te leva a tomar lítio, a saltar pela janela ou te entregar ao álcool. E sabe por que é assim? É porque essa é a batida de uma geração que acreditou sinceramente na paz, no amor e na fraternidade entre culturas e povos.

Tipito

Alan Caldas

Narinha classificava homens por tipos.

- O cara é assim: tipo grande, entende?

Tinha tipo de todo tipo: pequeno, médio, gigante. E Narinha conhecia cada tipo esquisito. Mas teve um que deixou ela tipo assim, alucinada. Era o João. Tipo feio, mas bem dotado. Intelectualmente, é claro.

Sabia de tudo, o João. E o que encantou a Narinha foi que o João falava pelos cotovelos.

- É todo atenção para mim. O cara é tipo grilo falante. Meu grilo falante, sacou?

O João também classificava gentes.

- Tem tipo feia e quente. Tipo deusa e fria. “Capicci”?, perguntava o João. Entendeu?, perguntava ele, num sotaque italiano que ajudava a enrolar as tipo dadas.

Para o João, tipo alta, tipo baixa, tipo magrela, tipo fofa, o que vinha ele abraçava.

Era tipo topa todas, o João. E era matreiro.

“Sou tipo Don Juan”, ele dizia.

Mas o que ele adorava era ser tipo Romeo.

- Em todo peito feminino mora a Julieta.

E foi assim que encontrou a Narinha, um tipo “varre todos” mas no fundo tipo Julieta.

Na primeira vista a Narinha pensou no João como tipo para sempre.

Já para ele, ela era tipo ficar.

Os dois se cruzaram e seus olhares tipo assim se encontraram, um tipo roçar de pele, tipo química, tipo coração pulsando, tipo olhares se procurando, tipo, tipo, tipo metade da maçã.

A Narinha acabara de passar três tipos, e porque um amava tipo bicho, ela vinha com pernas trôpegas, tipo acabada. E assim, tipo detonada, cansada da vida tipo uma noite apenas nada mais, ela achou o João.

Se para cada pé tem um chinelo, ali estava o par. Um vestia o outro. Perfeitamente.

A primeira visão da Narinha foi tipo fêmea. Puro cio. Mas charmoso e manhoso que o João era, ela logo se viu assim, tipo mãe. E só falava mais tipo casa, tipo roupa passada, tipo filhos.

Deu certo, os dois, tipo por uns tempos.

Mas então o João teve uma visão. “Uma epifania”, ele disse num bar escuro, dias depois, com copo de whisky na mão, tipo bêbado.

- Tive a visão do futuro que não queria.

Futuro tipo marido, tipo pai, tipo aluguel, tipo família, tipo sogra, tipo reunião na escola, tipo adolescência que não a dele.

Mas tipo homem, ele não disse isso a ela.

A Narinha estava com enxoval pronto quando a Gladis contou que o João estava tipo saindo com quatro amigas dela ao mesmo tempo. Houve gritos, choro e o típico barraco.

Ela queria que ele admitisse que estava errado. Mas ele não admitiu. E, por fim, e sem dizer palavra, o João saiu. E a última coisa que ouviu foi a Narinha gritar da porta:

- Vai Tipinho. É bem do teu tipito...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

E tudo vai ficando lá bem longe

Alan Caldas

Não sei quando aconteceu, mas já não consigo acreditar numa única palavra que político diz. Me esforço por crer, mas não consigo.

Me dei conta disso escutando o discurso de vitória da dona Dilma. Ela prometendo defender “a liberdade de imprensa” me soa falso. Sei que não é, mas me soa falso.

E não é nada pessoal com ela. Não votei nela, mas de certa forma torci para que se desse bem. Não para que ganhasse, pois votei no Serra, mas para que continuasse viva. O câncer que dizem que ela tem me preocupa. Sei que para muitas pessoas, chegar ao poder é até mais interessante que viver. Tancredo Neves que o diga. Mas toda vez que diziam “ela tem câncer”, algo ruim me tocava e intimamente pedia que ela fosse protegida.

Então, não é com ela, Dilma, nem com o discurso de derrota do Serra, desejando “boa sorte” à ela, no que também não creio. É com todos. Não creio mais em palavra de político.

Em 30 anos de jornalismo, fiquei estéril ao que políticos dizem. Tudo que a dona Dilma disse ontem me entrou por um ouvido e saiu pelo outro, sem deixar marca. E assim tem sido com todos, os que gosto e os que não gosto.

É ruim isso. Significa que minha intimidade de cidadão não confia mais nas pessoas da política.

Me tornei brasileiro? Pode ser. Já penso que na política todos chegam para se beneficiar. E tudo de bom que dizem que farão aos outros é apenas parte da dissimulação e simulação. No fundo, o que querem é se dar bem.

Estou assim. Mas não gostaria de estar assim. Me faria melhor ser crente. Aleluia!

Que saudade tenho daquela época que eu engravidava pelo ouvido. Que saudade daquele Alan para o qual os líderes pareciam confiáveis e reais em seus discursos.

Me afastei da esperança? Me afastei da mentira. Talvez a verdade apenas me baste.

Isso não vai me fazer bem!!!!

O fato é que começo detestar isso de nós, da imprensa, ficarmos como cães de Lázaro aos pés da mesa de políticos que não convidaríamos para criar nossos filhos e só torcendo para que deixem cair migalhas de informações com as quais lhes daremos através de nosso trabalho o destaque que eles não merecem ter.

Estou triste comigo mesmo. É que cheguei ao ponto em que nada espero da dona Dilma, nada espero do seu Tarso e nada espero do seu Miguel. Desejo-lhes sucesso, é certo, e estou disposto a ajudá-los a ter sucesso. Mas nada mais deles me interessa.

Que saudade da ingenuidade.

Que saudade da inexperiência.

Que saudade do tempo em que me faziam de bobo e eu acreditava e ficava bem feliz.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Quebrou a linearidade da astúcia dos Kirchner

Alan Caldas

Na vida sempre ocorre o inusitado, o que vem como raio, que chega como ladrão quando menos se espera. E na política, que é hiper dinâmica, serve bem isso. Na política nunca se está totalmente seguro. A morte do ex-presidente da Argentina, Néstor Kirchner, mostra isso.

Néstor foi presidente e, após reeleger-se, colocou a esposa no lugar dele. As políticas econômicas dela se assemelhavam as dele, as práticas de pressão, de briga e pregação de ódio civil dela contra imprensa e setores como agricultura e pecuária, eram no governo Cristina idêntico ao de seu antecessor e esposo, Néstor.

O ex manobrava por trás da cortina a atual, sendo Kirchner presidente de fato e Cristina a presidente de direito. Assim, Néstor preparava-se para assumir “formalmente” (pois “por baixo dos panos” já havia assumido) o cargo de presidente. Seria “certamente” (diziam os mais afoitos) eleito outra vez presidente.

Dentro da Argentina e fora dela, os poucos seres humanos que se preocupam com o andamento do Estado de direito, que a duras penas (de morte, muitas vezes) a América Latina conseguiu conquistar, se preocupavam com dízima periódica política dos Kirchner.

Havia um plano entre marido e mulher para se revezar eternamente no Poder Público, concorrendo (e ganhando) ora um com o apoio do outro, ora o outro com o apoio de um. Isso enterraria a democracia e transformaria a Argentina numa espécie de “Ilha Kirchner”.

A compra de voto em troca de comida e casa, lá como cá vinha sendo uma prática. Os ataques a imprensa livre, lá como cá, vinham sendo uma prática. A implantação de “controle social” dos necessitados com dinheiro público, lá como cá vinha se tornando prática. A corrupção das bancadas políticas, o aliciamento dos setores altos do Judiciário, tudo vinha degringolando.

Cristina chegou a criar um grupo de Bad Boys, jovens racistas, viciados e violentos, que se especializavam em “acalmar” (leia-se: encher de porrada) quem “atacava” (leia-se: criticava) o governo Kirchner. Estava “tudo certo” para mais quatro anos de Kirschnerismo.

Mas o coração de Néstor parou.

Aos 60 anos, novinho em folha para os padrões etários atuais, seu coração estancou. Para sempre. E estancou também a “carreira” da família Kirchner na Argentina.

Sinto a morte de Néstor Kirchner. Mas ficou claro que quando Deus não joga, fiscaliza.

Tudo mais que resta ao cidadão comum é contar com os incompreensíveis fenômenos que quebram a linearidade da astúcia e voltam a dar ao Estado de Direito alguma (mesmo que pequena) esperança.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

As quatro leis da espiritualidade

Alan Caldas

Recebi do amigo Nestor Fonseca o texto a seguir . São “as quatro leis da espiritualidade” e vem da cultura indiana. É incrível, e merece ser dividido com as pessoas que (as vezes sem nem mesmo saber porque) me acompanham diariamente nesta coluna. Boa leitura!

A primeira lei diz:

“A pessoa que vem

é a pessoa certa”.

O que significa? Ninguém entra em nossa vida por acaso. Todas as pessoas ao nosso redor têm algo para nos fazer aprender.

A segunda lei diz:

“Aconteceu a única coisa

que poderia ter acontecido”.

O que significa? Nada do que acontece em nossa vida poderia ter sido de outra forma. Mesmo o menor detalhe. Não há nenhum “se eu tivesse feito tal coisa...” Não! O que aconteceu foi tudo que poderia ter acontecido. E se aconteceu foi para aprendermos a lição e seguirmos em frente. Todas as situações que acontecem em nossa vida são perfeitas.

A terceira lei diz:

“Toda vez que você iniciar

é o momento certo”.

O que significa? Tudo começa na hora certa, nem antes nem depois. Quando estamos prontos para iniciar algo novo em nossas vidas, é que as coisas acontecem.

A quarta lei diz:

“Quando algo termina,

ele termina”.

O que significa? Simplesmente assim: se algo acabou em nossa vida é para nossa evolução. Por isso, é melhor sair, ir em frente e se enriquecer com a experiência. Não é “por acaso” que estamos lendo este texto agora. Se ele veio à nossa vida hoje, é porque estamos preparados para entender que nem um floco de neve cai no lugar errado.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

É óbvio que o prefeito Miguel disse

Alan Caldas

O prefeito Miguel foi à Alemanha e afirmou a uma repórter deste jornal que não usaria dinheiro da prefeitura.

Isso de pagar “do próprio bolso” é demagogia, pois a viagem dele beneficiaria Dois Irmãos. Mas ele disse. E se disse, está dito.

Entretanto, o prefeito gastou dinheiro da prefeitura. Disse que não gastaria e gastou.

Como resultado, os vereadores bateram no prefeito e a viagem virou uma polêmica.

Na sexta-feira encontrei o prefeito Miguel e perguntei da viagem. Ele disse que daria “uma coletiva”.

- Coletiva é chato, prefeito. Dá uma entrevista ao JDI e outra para o resto.

O prefeito acatou e marcamos para as 11h da manhã a entrevista que está sendo publicada hoje. Após a nossa entrevista com ele, o prefeito deu a tal “coletiva”. E então, já sem a nossa presença na sala, o prefeito Miguel teria dito que a informação de que ele não usaria dinheiro da prefeitura foi “um mal-entendido” da repórter. Disse que a repórter “se confundiu”.

Talvez o prefeito ainda esteja meio tonto devido a grande diferença de fuso horário entre Brasil e Alemanha. Só posso acreditar nisso, pois Miguel sabe que não foi mal-entendido.

Miguel sabe que disse que não usaria di­nheiro da prefeitura “nem para passagem”.

Na sexta-feira, aliás, ele confirmou várias vezes que sim, havia declarado que não usaria dinheiro da prefeitura na viagem.

Hoje, porém, vem a furo e diz que a repórter, “se confundiu”.

O prefeito quer tirar o dele da reta. Mas joga a culpa dele em cima de uma profissional.

Quero dizer aos leitores que neste jornal somos vacinados. Aqui sabemos que político diz uma coisa e faz outra. Aqui sabemos que salvo uma ou outra exceção, político é cínico, falso e maldoso. Por isso, a ordem neste jornal é ter 100% de certeza quando se publica uma decla­ração de político. Na dúvida, não se publica, pois político é como gato, dá o tapa e esconde a mão.

Foi o prefeito Miguel que errou. Não os trabalhadores do Jornal Dois Irmãos. Se alguém tem de lavar a boca, não somos nós.

Essa viagem tinha tudo para ser grandiosa, mas se reduziu porque o prefeito fez demagogia, dizendo “não vou usar dinheiro da prefeitura”.

Este jornal defende que prefeito sempre viaje com dinheiro público.

Este jornal entende ser fraude enrolar a opinião pública se fingindo de bonzinho e mão-segura. Não existe político “econômico”.

Este jornal defende que Dois Irmãos é uma cidade rica e que pode mandar seus representan­tes a qualquer lugar. Inclusive mandá-los a um lugar que estou pensando aqui na minha cabeça...

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Felizmente o futuro será brilhante

Alan Caldas

Vieram elogiar a coluna sobre a falta de gra­ti­dão em relação a saúde pública. Mas o que es­crevi sobre a saúde, poderia ter escrito sobre a educação. A atual educação pública municipal, se comparada com o passado, pode ser consi­derada milagrosa. Eis o motivo do milagre:

Primeiro, acabou o jaleco branco. Segundo, aca­bou o regime marcial. Terceiro, dá-se livro ao aluno. Quarto, dão merenda aos alunos. Quin­to, ninguém toca no aluno. Sexto, dão trans­por­te ao aluno. Sétimo, “acolhem” aluno que antigamente seria expulso e hoje é aturado, mesmo que enlouqueça o professor. Oitavo, dão contra-turno ao aluno. Nono, no contra-turno dão refeição e mais livros. Décimo, dão aulas de conteúdo variado, não apenas de conhecimento. Décimo primeiro, dão na escola ensino de como escovar dente, que penso seja DEVER dos pais e não dos professores. Décimo segundo, dão aconselhamentos com pedagogos, não mais puxão de orelha e reguada. Décimo terceiro, dão ouvidos aos alunos bons e educados e aos maus e grosseiros. Décimo quarto, dão ou­vi­dos aos pais, mesmo que os pais, ao contrário da lógica, fiquem a favor de atitudes er­radas do filho. Décimo quinto, dão Bolsa-Esco­la. Déci­mo sexto, dão passeios grátis. En­fim, dão ao aluno tudo, e mais prédios de ga­barito, iluminação perfeita e professores bem graduados.

É uma educação milagrosa. E quem passa por uma escola dessas, provavelmente se torne um ser humano grato a tudo que lhe deram.

Entretanto, pais nunca procuram este jornal para elogiar o que a escola dá aos seus fi­lhos. E o pior é ver pais dando em casa educa­ção fami­liar diferente da que o filho recebe na escola. Na escola toda criança aprende a resol­ver conflitos conversando, aprende que fumo e álcool são ruins e que palavrão é feio. Já em ca­sa muitos pais resolvem problemas a tapa, fu­mam e be­bem na frente dos filhos e usam palavrões.

Que pais são esses? Ingratos.

Todo pai que faz em casa diferente do que o filho aprende na escola, é um sujeito sem grati­dão, sem respeito pelo que a sociedade lhe dá.

Então, não é só no tocante à saúde que as pessoas recebem mais do que pessoalmente poderiam pagar e não valorizam. É em praticamente tudo. E é por isso que acredito que todos deveríamos pagar alguma coisa, pois como a realidade está aí para provar, tudo que se recebe “de graça” acaba não tendo valor. Se os pais tivessem de pagar para ter, privadamente, a educação que seu filho recebe com o dinheiro da sociedade, provavelmente a maioria das crianças estaria fora da sala de aula.

No entanto, não podemos perder a espe­rança, pois as crianças que hoje estão na escola, amanhã nos legarão uma sociedade certamente bem melhor do que a que temos hoje.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O Judiciário eleitoral está nos vendo

Alan Caldas

A presença hoje em Dois Irmãos do Presidente do Tribunal Regional Eleitoral, Luiz Felipe Silveira Difini, demonstra o bom traba-lho eleitoral que se faz em Dois Irmãos.

Este ano, Dois Irmãos foi a primeira cidade gaúcha a encerrar o escrutínio dos votos na eleição. Entre 497 municípios do Estado, Dois Irmãos foi o primeiro a dizer “encerrou a contagem de votos”.

Além de primeiro no Estado, 1 em 497, fomos o décimo município no Brasil. Ou seja: 10º em 5.100 municípios. É uma colocação e demonstra o preparo de todo o departamento eleitoral do Poder Judiciário em nossa cidade. Mas não é só isso.

Há outro fato a ser ressaltado: esta não foi a primeira vez que Dois Irmãos conquistou o título de primeira cidade a encerrar a eleição. Esta é a quarta vez! E consecutiva!

Nos últimos quatro anos, as eleições em Dois Irmãos não só têm sido pacíficas, como organizadas e ágeis. O trabalho da juíza Eleitoral, doutora Angela Dumerque, com o escrivão Renato Fritz, mais todos oficiais, mesários, escrutinadores e Junta Eleitoral, tem sido exemplo de organização.

O fato da eleição encerrar antes aqui do que no resto do Estado não é acaso. Há neste jornal várias notícias de que quando os demais municípios gaúchos recém começavam a cha­mar os mesários, todos os mesários e escrutinadores de Dois Irmãos já estavam convocados.

O chamamento e treinamento de mesários e escrutinadores, quando começou nos outros municípios, aqui já estava pronto.

Nossa colocação no ranking dos mais ágeis não é um acaso e sim organização. Orga­nização e visão de campo com profundidade. Não foi “sorte”. Sorte nada mais é do que o pre­paro en­contrando a oportunidade. Não foi “uma sorte” Dois Irmãos encerrar a eleição em pri­meiro lu­gar no Estado e em décimo no Bra­sil. Foi pre­paro. Preparo coordenado pela juíza elei­toral, seguido pelo escrivão eleitoral e bem aceito por todos que são fundamentais no pleito, os mesários e escrutinadores. Aliás, um surpreendente número de mesários e escrutinadores em Dois Irmãos são mesários e escrutinadores não porque foram “convocados”, e sim porque se apresentaram voluntariamente para sê-lo.

Esta característica de trabalho voluntário, somado a experiência e planejamento estratégico do Judiciário Eleitoral é que produz o “milagre” do primeiro lugar nos últimos quatro anos e o 10º no Brasil. Num Brasil onde o setor pú-blico arrasta as pernas numa dolorosa lentidão, o departamento eleitoral de Dois Irmãos se tornou corredor de 100 metros rasos. E a presença em Dois Irmãos da autoridade máxima do Tribunal Eleitoral gaúcho certamente é uma prova de que o Judiciário está nos vendo.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Talvez não nos falte exatamente “saúde”

Alan Caldas

Com frequência leio reclamações contra o Postão. É gente que ficou “horas”. É pessoa desabafando que “nem olharam” ela. É povo reclamando do remédio. São os que esperam exames. São os que querem cirurgia.

Respeito as opiniões, mas reclamar do Postão é coisa de mal agradecido. É o sujeito que reclama da comida porque nunca teve fome, só teve apetite.

Nasci (em 1957) numa época sem saúde pública. Tinha médico pago, com dinheiro ou "Deus lhe pague" (e depois se mandava galinha, ovelha, ovos ou o que se tinha, mas era pago).

Depois, criaram Posto de Saúde. Se ficava na fila. E o médico só atendia duas vezes por semana: Uma era o povo em geral, na segunda-feira, e na terça-feira era o dia das meretrizes.

Depois veio dentista grátis.

Finalmente, já com vários Postos, o Presidente Sarney, impulsionado por um empurrão nas costas dado pelo doutor Ulysses Guimarães, sancionou a nova Constituição Federal, promulgada pelo Congresso Nacional. E ali se socializou a saúde e se criou o SUS.

Em Dois Irmãos, já em 1992, o prefeito Arnildo Mallmann criou o Postão. E de lá para cá, nunca se investiu tanto dinheiro em saúde. São milhões e milhões de reais da prefeitura to­dos os anos jogados na saúde.

Como resultado, temos incrível número de médicos, odontólogos, enfermagem, prédios, veículos, ambientes e atendimento.

Meu Deus, quanto atendimento! Quase 50 mil atendimentos por ano, numa Dois Irmãos que tem apenas 27 mil habitantes.

Até se dá remédio!

Até se busca gente em casa de ambulância por problemas que, quando nasci, nem me levariam ao médico!

E apesar de se fazer tanto pela saúde dos outros, vê-se desses “outros”pouquíssimo reco­nhecimento em relação ao que se lhes proporciona de facilidades na saúde física e mental.

Tenho vergonha de usar a saúde pública. Sou desses que acreditam estar tirando o lugar de quem necessita mais que ele.

Sou dos que pensam ter de aguentar “no osso do peito”. Uma noite tive crise renal e queriam chamar a ambulância. “Nada feito”, gritei. “De ambulância só me levam morto, pois se sair da­qui vivo e de ambulância ninguém mais vai me res­pei­tar”. E segurei cólica renal tomando aspirina.

Bah... me lembro até hoje! He, he, he...

Dias atrás tive um cisto e fui lá. Depois fiz curativos. E tudo grátis. Um dia voltei com chocolates e dei presente ao médico e sua assistente. “É pelo grande trabalho profissional que recebi aqui”, eu disse. E vi alegria naquelas pessoas que dão tudo de si para diminuir nossa dor.

O que falta ao brasileiro não é saúde. É gratidão!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Nada que exclua a felicidade me interessa

Alan Caldas

Preciso ter ligação sensualmente satisfatória com quem me relaciono. Se não for assim, não dá certo.

A pessoa com quem me relaciono não pode colocar em perigo meu senso de dignidade. Deve compreender que coopero com a humanidade e preciso estar livre de discórdias.

Tento superar dificuldades. E quem está próximo, logo descobre que pretendo ocupar posições de controle sobre os acontecimentos.

Sou rigoroso nas exigências emocionais. Escolho meticulosamente cada pessoa com a qual me relaciono de perto. Entretanto, quero independência emocional e raramente mergulho fundo no sentimento.

Desejo estar emocionalmente envolvido, mas sou cauteloso na escolha. Por isso, evito conflitos abertos.

Desejo ser aceito e ter estima e considera­ção dos outros. Porém sou escravo dos meus conceitos e não abro mão de me unir apenas aos que têm padrões tão elevados quanto (julgo sejam) os meus.

Não quero me sentir vulgar. Vai daí que me afasto de qualquer amizade que me leve à vulgaridade, em todos os seus aspectos.

Não abro mão de ser como sou.

Diante de um ponto final, fico reticente. Sei que deveria terminar algo logo, mas vou adiando. A razão de não fechar a porta de vez, é a minha fraqueza: não resisto aos apelos e solu­ços me pedindo para fazer de forma diferente.

Me sinto seguro se concordam com algumas das minhas opiniões. Sempre concordo com algumas opiniões dos outros. Aliás, concordo mesmo sabendo que são muitas vezes opiniões fracas, falhas ou mesmo ridiculamente ridículas.

Sou ineficiente em quase tudo. Mas olhe aqui: quando estou disposto a que algo realmente funcione, coloco em campo toda minha capacidade de convicção coletiva. Normalmente me saio bem, e normalmente surpreendendo para melhor quem entra em campo comigo.

Quero ser amado por mim mesmo, eu descobri. Talvez por isso insista nisso de ter a atenção e estima dos outros.

Me impressiona as pessoas originais, com singular em suas personalidades e que têm uma ou outra característica notável. Dessas pessoas, tento assimilar as qualidades que admiro, e sempre as incentivo a ser cada melhor, porque é dos notáveis que depende o mundo.

- Quem sou eu?

- Sei lá! Sou íntimo e pessoal.

Mas posso dizer sem medo de errar que me defino assim: Nada que exclua a felicida­de me interessa.

Confundindo alhos com bugalhos

Alan Caldas

A política partidária, que é a parte da “política” que visa chegar ao Poder, tem um ódio inato a ela, que já nasce com ela.

A eleição presidencial entre Serra e Dilma tem mostrado isso claramente.

Serra é comedido, é o paulista típico: fino, educado, trabalhador e tem um viés cristão que o faz levar tapa na cara e dar a outra face. Entretanto, quem assiste aos debates vê pauleira do início ao fim e sempre Serra batendo.

Dilma é mineira. Dizem que mineiro trabalha na sombra, que bate e esconde a mão, como gato. É dos mineiros a fama de bebe-quieto. Mas Dilma, como se vê nos debates, solta o verbo, e às vezes fica tão furiosa que dá impressão que vai atacar Serra no braço e não no verbo.

O que se vê nos debates é rancor contido, ódio destilado em quinta essência que também pode ser visto nos programas da tevê.

O programa do Serra na tevê é cara limpa. Os “marqueteiros” (esses infames) não usam tantos recursos de photoshop. Já Dilma na tevê é puro filtro, Dilma nem parece ela, tão virtualmente maquiada que a fazem. Mas fora os recursos de dissimulação, resta a verdade do ódio. Serra bate. Dilma rebate e também bate, e bate pesado. Ódio que vem, ódio que vai, tudo comprovando que a violência é monótona e repetitiva e nada mais que violência é o que ela gera.

Dias atrás, Serra estava numa missa e tiveram de tirar o padre escoltado, pois ele começou a falar bem do PT no sermão e começou uma pauleira física na porta da igreja.

É o fim do poço!

A última série de pancadarias envolve um assessor de Serra. Tiraram a Erenice e entrou um tal de “Preto”.

Quem viu o programa de hoje, viu que Dilma faz de tudo para provar que Serra “também é corrupto”. Se Dilma não tivesse se comparado, dias atrás, a Joana Darc e a Madre Tereza de Calcutá (uáááú!!!!) até se acreditaria. Mas depois de Madre Tereza, vê-se que “vale tudo” MESMO!!!

Já Serra vai tanto à missa, que se deixar, os marqueteiros dele dirão que ele estava na Santa Ceia “e não era Judas” (que os marqueteiros farão de tudo para provar que era a dona Dilma).

O ódio é contaminante. Quando ligam Dilma a Collor, ela vira renúncia e corrupção. Quando ligam Dilma a Sarney, ela vira traição. E se a ligam a José Dirceu, Dilma é mensalão. E o desatento pensa que ela realmente é.

Mas o troco sempre vem. E hoje Dilma quase se rasgou para fazer o eleitor acreditar que Serra é “tão corrupto” quanto os que ele mostra estarem próximos de Dilma.

O desatento de ambos os lados engole, pois confunde alhos com bugalhos. É de chorar!!!

Acabou a Lei Seca

Alan Caldas

A política partidária, que é a parte da “política” que visa chegar ao Poder, tem um ódio inato a ela, que já nasce com ela.

Hoje sou obrigado a dividir com os leitores a mais recente notícia sobre a Lei Seca. É que agora, como a muito se disse aqui nesta coluna, o STJ confirmou que em não tendo como obrigar alguém a fazer o teste de bafômetro ou de sangue para medir o teor de álcool no sangue, cai por terra a Lei Seca. O Superior Tribunal de Justiça afirmou esta semana que a possibilidade da pessoa se recusar a fazer o teste do bafômetro deixa a Lei Seca sem efeito.

O STJ divulgou nesta semana que a ação penal contra um motorista que se recusou a fazer o teste do bafômetro foi trancada devido a um “paradoxo legal” na Lei Seca que deixa sem efeito prático o crime previsto na legislação.

De acordo com o STJ, o motorista não pode ser obrigado a se submeter ao exame. Entretanto, a prova técnica, com a concentração de álcool no sangue, é indispensável para incidência do crime de dirigir embriagado.

Antes da Lei Seca, a lei não previa quantidade específica de álcool no sangue. Com a nova lei, a dosagem passou a integrar a lei e o delito só ocorre com a quantificação da concentração de álcool no sangue. E isso não pode ser presumido ou medida de forma indireta pelo policial.

“A Lei Seca dava a impressão de que a violência no trânsito, decorrente da combinação de bebida e direção, estaria com os dias contados”, disse o ministro Fernandes.

Com a decisão do STJ, a ausência da comprovação por meios técnicos impossibilita precisar a dosagem de álcool no sangue da pessoa. E isso, segundo o Ministro, inviabiliza a adequação típica do fato ao delito. Ou seja: impossibilita punir quem dirige alcoolizado.

Os deputados queriam criar um critério objetivo (bafômetro) para caracterizar a embriaguez, mas inadvertidamente criaram uma situação mais benéfica para aqueles que não se submetessem aos exames de bafômetro ou de sangue.

O indivíduo não é obrigado a produzir prova contra si. E ninguérm pode obrigar a pessoa a se sujeitar ao teste de bafômetro ou exame de sangue.

Como a Lei Seca exige a realização de prova técnica, fica sem efeito prático a existência da lei que diz que é crime dirigir embriagado.

“É tormentoso deparar-se com essa falha legislativa”, disse o relator, ressaltando a impossibilidade de sujeitar a lei ao sentimento pessoal de Justiça do juiz. Tal opção, afirma, levaria ao “arbítrio na aplicação do direito que, fora de controle, colidiria inevitavelmente com princípios fundamentais como o da segurança jurídica”.