terça-feira, 24 de agosto de 2010

Não precisa ser iPhone

Alan Caldas

Um respeitável senhor de seis anos de idade me solicitou um telefone celular.

Seis anos. E quer celular!

O primeiro celular que vi foi em 1993, na Biblioteca Pública de San Rafael, na Califórnia. Um senhor barbudo falava num equipamento grandão, parecido com aqueles rádio-amador dos filmes de guerra. Aquele trambolho no qual ele falava, se ligava por um fio grosso a uma bolsa enorme, que era a bateria. Fiquei olhando e reparei que ele se exibia, falava bem alto para todos ao redor o ouvir, ver e invejar.

Eu estava nos Estados Unidos, mas na mesma hora lembrei que não existia telefone celular no Brasil. Naquele 1993 o Brasil vivia uma situação telefônica assustadora.

Dois Irmãos, por exemplo, tinha 13 linhas para atender os 1.500 telefones que existiam.

Eram mil e quinhentos aparelhos usando apenas treze linhas, e acontecia o seguinte: você tirava o telefone do gancho e esperava, esperava, esperava, esperava, esperava, esperava... e depois de muito esperar, vinha a linha, você ouvia aquele som de Lá Maior indicando que se poderia finalmente ligar.

Em 1993, ter linha telefônica era um pesadelo. O Jornal Dois Irmãos, para ter o número (1155), precisou ir até o presidente da CRT, com o prefeito Romeo Wolf, e o presidente deve ter falado com a dona Eloá Collet, que finalmente nos conseguiu um número.

Se não fosse “via CRT”, você teria de comprar um número de alguém. E, em 1993, uma linha telefônica chegava a ser vendida por 4 ou 5 mil dólares. Era tão caro, que se deixava de herança. Não foi uma nem duas vezes que apareceu em testamento “deixo uma linha telefônica”.

Então o mundo se modernizou. Inventaram o chip de silício, que revolucionou tudo. Descobriram o uso popular da micro-onda. E inventaram o telefone celular móvel, reduzindo o tamanho da bateria para o que se tem hoje.

E quatro ou cinco anos depois daquele 1993, o Brasil entrou na onda da telefonia celular. E nosso país, assim como o mundo, foi inundado pela tecnologia telefônica, primeiro analógica e depois digital. Então chegamos ao absurdo de casos como o desse respeitável senhor de seis anos, que afirma que ter celular é “de grande necessidade”. Ele ainda foi modesto, e disse:

- Não precisa ser iPhone. Mas tem de ter vídeo, pois estou fazendo pesquisas com formigas e borboletas e quero mostrar aos coleguinhas na escola.

Veja só “aonde” nós chegamos.

Esse mundo tá perdido mesmo!