quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Frutos dos exemplos que deram

Alan Caldas

Deveria ser um escândalo isso que saiu na tevê hoje, de alguém da Receita Federal vasculhar, sem autorização, os dados sigilosos de pessoas do PSDB.

Governo usar a instituição para fazer terror político deveria ser considerado escândalo, pois é antiético, imoral e criminoso.

Dever, deveria. Mas me responda:

- Existe escândalo possível no Brasil atual?

Foram tantos sem punição, que ficou banal.

Diante desses maus exemplos de não-punição, na média nós, brasileiros, ficamos moralmente estéreis. E fatos como um governo que administra o Estado usar a Receita para aterrorizar seus desafetos, só consegue escandalizar a poucos de nós.

Grande parte dos brasileiros não sabe o que é “Estado”. Para o cidadão médio, Receita Federal deve ser aquele papel que um doutor dá para você ir ali na farmácia comprar remédio.

E “ética” tem pessoas formadas em universidade e com diploma de doutor que não saberiam definir exatamente o que é.

Esse fato do uso indevido de dados não vira escândalo por outro motivo, também.

É que tem brasileiro esclarecido, que sabe o que é Estado, Receita e ética. Sabe, mas não se importa, pois vive apenas para si e só se preocupa com o seu umbigo, sua casa, seu carro, sua roupa, seus “bens”.

Tem ainda outra parte dos brasileiros que acredita que político é tudo ladrão e corrupto, e governo é um saco de gato onde todos são aproveitadores, cínicos e traidores. E, para estes, quando vem uma denúncia do uso da Receita Federal para vindita política, ele diz:

- Os políticos que se entendam!

Pinto aqui o retrato de um país que, se não for renovado em sua auto-estima coletiva, vai virar uma nação de egoístas, para quem o coletivo só interessa quando nos beneficia diretamente.

Em dias como este, me pergunto:

- Como chegamos ao que somos hoje?

Diante dessa questão, começo a refletir e me dou conta de uma verdade bem simples: Governar é como criar filho: Não basta falar, tem de dar exemplo.

Um exemplo é mais forte do que mil palavras. E nós, brasileiros, somos fruto dos exemplos que os políticos nos deram.

Num ambiente adoecido pela corrupção, as pessoas comuns como eu e, talvez, como você, concluíram equivocadamente que viver é só cuidar do próprio interesse. Então adotamos a Lei de Gerson, levar vantagem em tudo, para nos reger a vida pessoal e coletiva.

Egoístas, passamos a crer que somos independentes da rua, do bairro, da cidade, do Estado, do país e do mundo. E viramos como uma pequena gota, que no meio do oceano se ilude e acredita ser uma imensa e independente ilha.