Alan Caldas
Talvez o mais difícil na vida seja definir quem somos. Ou o que somos.
Dependendo da época você se confunde. Um menino que nascesse em Esparta, na Grécia Antiga, de pronto sabia que seria um guerreiro.
Dias atrás, apareceu no Fantástico o jovem indígena que, para “se tornar” homem, vestia uma luva onde estavam formigas venenosas, e se suportasse a dor 15 minutos, “seria homem”.
Os espartanos gregos e os jovens índios tinham mais ou menos o mesmo destino.
Nós, gaúchos, sempre tivemos mais ou menos claro o que era ser homem e o que era ser mulher. Homem se equiparava a cachorro: fica na rua. Mulher a uma gata: ficava em casa.
E durante décadas todo gauchinho e gauchinha sabia que “mulher e gato era em casa, homem e cachorro na rua”.
Dos gregos antigos ao gauchinho e gauchinha de pouco tempo atrás, mudou muito pouco. E hoje ficou difícil saber quem se é. A vida moderna mudou tudo que durante milênios se teve de “consciência” sobre o que se é.
Atualmente, viver é ganhar dinheiro. Viver é comprar casa. Comprar carro. Comprar roupa de grife. Até pessoas se compra, como se vê nos “casamentos de marketing” que aparecem na revista Caras. O antepenúltimo de Fábio Júnior, que rendeu 16 páginas (pagas) na revista Caras, durou 6 meses ou pouco mais.
Como esta é a época do “comprar”, algumas pessoas acreditam que é também a época do “ter”. E é assim que muitas pessoas, que têm tudo para ser inteligentes, confundem-se com o que têm e pensam ser a casa que têm, pensam ser o carro que têm, pensam ser a moto que têm, pensam ser a roupa que usam, pensam ser o relógio que compraram, pensam ser o saldo corrente na conta bancárias.
O curioso é que estamos vivendo nesta época e, como esta é também uma época de aparência (e não de consistência), confundimos nossa periferia com nosso íntimo, e acabamos nos tornando a moral falsa que determina nosso sistema de valores.
Toda vez que me pego pensando assim, equivocadamente, sobre “quem sou”, tento me lembrar do exemplo de Alexandre o Grande, para sair da alucinação e voltar à sanidade. Alexandre pediu que seu caixão fosse carregado por médicos, para provar que ninguém cura a morte; Pediu que do leito de morte até a cova, tudo fosse coberto pelas jóias que tinha, para provar que o que aqui se ganha aqui se deixa; E pediu que suas mãos fossem para fora do caixão, a fim de ensinar que aqui de mãos abanando se entra e de mãos abanando se sai.