sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Finalmente libertas

Cresci num mundo que desrespeitava a mulher.
Na infância da minha geração, mulher jamais andava na rua de noite. Nem ia a bar.
Mulher só poderia fumar em casa, e se fumasse na rua era “perdida”.
Na casa o homem era a “cabeça do casal”. E mulher só decidia se o homem decidisse.
Os homens se apegavam nos “bons costumes” femininos para se vingar da mulher. Na infância da minha geração, o homem que soubesse que a mulher o traía poderia matar ela e usar, como defesa, o Crime Passional. Era uma espécie de “insanidade temporária” que o homem que matava a mulher podia alegar em sua defesa. E saía absolvido!
A mulher era “dona de casa”. E em Dois Irmãos certa vez o nosso querido padre Bráulio Weber disse num sermão do Dia das Mães que mãe era só a que cuidava da família. Causou um escândalo tal na comunidade que o bispo Sinésio Bohn o transferiu.
A mulher da nossa infância não tinha direito. Só obrigações. O escritor argentino Jorge Luiz Borges no livro “A Intrusa” mostra a tragédia da mulher “gaúcha”. Transformado em filme, “A Intrusa” escandalizou o próprio Borges, que ficou “horrorizado” ao ver na tela o que só tinha na imaginação.
Até a geração da minha avó, mulher não entrava no galpão. No máximo ia na porta, levar chimarrão, mas lá dentro não botava os pés e se entrasse seria mal-falada.
Profissão era muito pouca para mulher. Professora era a regra. Nas demais, só com muito tato.
Foi uma colega minha de faculdade, a Vera, que se tornou a “primeira delegada” aqui no Estado, e é claro que ninguém acreditava que ela teria coragem para enfrentar a bandidagem quando o caldo engrossasse. A vera provou que tinha, sim, o mesmo fôlego que os demais colegas policiais homens.
Hoje o mundo está uma maravilha para a mulher, que tudo pode e tudo faz. Ao invés de escravas, nós homens ganhamos companheiras, parceiras, amigas e amantes auto-suficientes. O resultado dessa mudança de comportamento está nas gerações que estão chegando ao mercado. Espera-se que sejam muito mais respeitosas com a mulher do que foi, por exemplo, a minha geração, que teve de fazer um esforço imenso para ver na mulher o mesmo “ser humano com direitos e deveres” que víamos em nós, homens.
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Trágico dilema: “Quando alguém pergunta a um autor o que ele quis dizer, é por que um dos dois é burro” (Mário Quintana)