quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Hoje o gordo. Amanhã o feio.

Alan Caldas

A sociedade dos “isto é certo aquilo é errado” pegou no pé dos gordos.

Ser gordo era bonito.

Ter barriga significava progresso.

Na segunda guerra, os norte-americanos diziam que japonês não crescia por que não comia ovo e bacon no café da manhã.

Entre nós, o Ministério da Saúde editou uma cartilha “educativa”, onde aparecia o Jeca-Tatu, um caipira magro e pobre, que invejava um vizinho bem gordo e rico.

Os magros como eu eram vistos como “tísicos”. E, em casa, toda mãe dizia:

- Come meu filho. Come para ficar forte!

Hoje, adeus ao prato de pedreiro!

E gordura, dizem agora, não é saúde. É doença! E pelo visto, das brabas.

E, se entendi bem, gordura quer dizer pressão, gases, coração pifando, colesterol, triglicerídeo, diabete, juntas doendo, coluna estropiada, veias explodindo...

Em síntese: ser gordo é tudo de ruim!

Não acredito nessa condenação dos pneuzinhos em 100%. Mas quem diz isso estudou (isso) mais que eu, e então me rendo.

Que engordar é bom é uma verdade hereditária, vem de pai para filho.

Vamos duvidar dessa verdade? Claro que não. Mas daremos aos doutores o benefício da dúvida, até que (quem sabe?) a ciência coloque em dúvida essa verdade como já fez com o ovo. Lembra do ovo? O vilão da cozinha! E agora absolvido. E viva o ovo frito!

Isso de criticar os gordos é perturbador. Daqui uns dias, ser gordo será tão feio quanto ser fumante. Mas ser fumante era “bonito”. Getúlio Vargas fazia campanha com um charuto. Winston Churchil, primeiro ministro inglês, combateu Hitler fumando um charutão. Freud fumava charuto. Bradbury, pai da ficção científica, narrava um homem chegando a Marte e, ao descer da nave, acendendo um cigarro e “dando uma longa tragada”.

Hoje ser fumante é horrível.

Mas já foi “horrível” ser preto. Foi horrível ser negro. Ser gay. E ser pobre.

Nosso mundo atua por “temporada”.

Já foi feio ser preto, ser veado, ser lésbica, ser pobre, ser judeu, ser índio, ser latino, ser punk, ser roqueiro, ser sertanejo, ser aidético, ser down... etc., etc., etc...

Agora vai ser feio ser gordo!

E atenção: quando acabar a temporada de “caça ao gordo” (como acabou a caça ao ovo) vão começar caçar os feios.

Vou colocar as barbas de molho. E começar a campanha “abaixo a caça aos gordos”. Enquanto estiveram caçando os fofinhos, vão deixar quieto os feios como eu... He He He ...

Os gordos que me perdoem, pois contra preconceito social astúcia é fundamental. Além disso, gordo pode emagrecer. Já feio não tem cura. E como feiúra é destino, a campanha contra nós será de pura e simples extinção.