Até os 10 anos de idade, tu vais só na brincadeira, leva a vida na flauta e enfrenta responsabilidades como escola, futebol, pescaria, bicicleta e a obrigatória subida e descida da casa do Tarzan. Dos 10 aos 30 tem correria. Atrás das moças, é claro. Tem de firmar o cabelo e ter pose de tenente, peito para fora, barriga para dentro, e ser destemido o suficiente para disputar as donzelas, porque a concorrência é forte dos 10 aos 30.
Aliás, aos 18 anos minha geração queria saber “quem” namorava as garotas de 18 anos. E só descobrimos quando chegamos aos 30.
Dos trinta em diante tu te dás conta de que a vida adulta vem chegando. E já pensas em assinar o Jornal Dois Irmãos, o jornal oficial da tua cidade. A essa altura tu já trabalhas, porque mãe e pai não sustentam vagabundo. E já passastes por duas ou três namoradas que te deram um chute ou tu as deixastes num choro cuja lembrança um dia te atormentará a alma. E por ter tido esses dois benefícios - reconhecer que a história precisa ser narrada por um jornal e por já ter tido o sentimento despedaçado - tu te encaminhas seriamente para uma vida de trabalho que só terminará realmente no dia da tua morte. Talvez tu ergas fortuna e dela aproveites com um ar adulto, mas talvez ergas fortuna e tenhas o infortúnio de te confundires com o que ela te compra, e aí te tornarás um imbecil. Talvez vivas bem. Talvez não entres no álcool. Ou na droga. Talvez sejas fiel. Talvez abras empresa. Talvez construas. Talvez mudes.
E é sobre mudança, este artigo de hoje.
A mudança de Dois Irmãos.
Amanhã, 27 anos depois deste jornal ter chegado aqui, Dois Irmãos completará 51 anos de existência político-administrativa.
A Dois Irmãos que encontramos 27 anos atrás foi completamente modificada. Cresceu. Inchou. Coloriu fisicamente. Destruiu suas sociedades. Ganhou vícios urbanos, como crime e violência, mas ganhou qualidades, como comércio mais forte, diversificação industrial e melhorias na infra-estrutura.
Uma cidade não é um ser humano. Mas também muda. Também envelhece. E também rejuvenesce. A Dois Irmãos que era já não é. E nós que a vimos como era, tendemos a dizer que Dois Irmãos era melhor como era do que como é. Mas acreditar nisso é parar no tempo, é não ver que a cidade evoluiu para a única evolução possível: o crescimento. E o crescimento trás contradições, com crescimento vêm acertos e erros, dores e alegrias, bons e maus, anjos e demônios. Mas é no crescimento que se adquire melhores ruas, melhores escolas e acesso a saúde e serviços que nem de longe acreditávamos que teríamos. Dois Irmãos ficou adulta. E, na meia idade, continua sendo espetacular.