quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Um ringue de julgamento social

Alan Caldas

A caça aos fofos e fofas não me agrada. No corpo cada um tem direito a ser como desejar. Engordar ou emagrecer é direito de todos. Mesmo que nos digam que é errado, lembre-se que certo e errado depende de quem julga.

Vi pessoas que optaram pelo suicídio para escapar das dores, problemas e angústias. Como não seria possível decidir por ser gordo ou magro?

Na vida todo mundo dá sugestões de acordo com a própria cabeça. E para cada um os demais estão meio ou totalmente errados. Certo, mesmo, bem certo, 100% bom total, só está aquele que julga o outro. Cada um acha que é a pessoa mais certa do mundo.

Desde que nasci, em 1957, vira e mexe e me deparo com esses julgamentos sociais que oprimem as pessoas.

Na infância estudei numa escola na qual, pela proximidade com o Centro, estudavam as pessoas “de bem” da cidade. “De bem” no sentido financeiro, é claro. Porque eticamente eram senão as piores as quase piores.

Naquela escola a vida do aluno era difícil se ele não tinha o uniforme mais fino, o sapato de couro e lustro, o lanche mais bem elaborado.

Não era escola. Era o ringue social onde se disputava situações sociais do tipo meu pai é isso, meu avô foi aquilo.

Era um julgamento social em cima do outro, e todos opressivos. Os pobres não eram pobres apenas, eram a escória, o lixo das margens que se aproximava do “centro”.

Se você se chegava a um coleguinha mais pobre, vinha represália e chacota, e o desprazer do convívio social ia se acentuando. Desprazer que terminaria nas brigas em bailes em nossa adolescência, porque pobre também cresce, fica bonito e se torna disputador e disputada nesse jogo de macho-ganha-fêmea que a sociedade tanto incentiva.

Mais tarde viriam os hippies, o rock and roll, e tudo foi sendo substituído até chegar “na boquinha da garrafa”, mergulhar no sertanejo e chegar ao “créu”, e tudo isso sempre ditando padrões de comportamento.

Esses preconceitos e desamor é que fertilizaram a terra social onde frutificou tanto a droga que hoje socialmente nos aterroriza.

Na minha infância, adolescência e juventude, se gostasse do que a média das pessoas não gostava, você estava gostando da “coisa errada”. E seria um caipira, vagabundo ou maconheiro.

Fumantes, veados, lésbicas, punks, fiéis, cada um desses a seu tempo foi vítima (e fruto) de um pré julgamento social.

Dos pobres da minha escola aos gordos que agora enfrentam olhares maledicentes, sou obrigado a dizer que nada mudou. Continuamos a ser mentalmente as mesmas mulas da minha infância, e empacamos em qualquer brejo mental que nos enfiamos.