Alan Caldas
Nesta eleição me dei o direito de passar batido. É a primeira eleição que não movo uma palha na tentativa de eleger este ou aquele. Fiquei neutro. Não acredito em neutralidade, claro, pois cada um de nós é um ponto de vista. Mas desta vez estou neutro. E não me alegra nem entristece “ganhar” ou “perder”. Tô fora! Me tornei o alienado que lava as mãos. Fiquei alienado político e, réu, confesso! Não assisti programa eleitoral na tevê. Nem escutei no rádio. Mas o melhor é a simpatia. Virei politicamente simpático. Quando chega político aqui no jornal, recebo a todos de forma cortes. Seja do partido que for, ele recebe aqui tratamento afetivo e elogioso. Lembro seus feitos, conquistas e esperanças, e incentivo ele a seguir em frente, e nos colocando a disposição para auxiliar no que for preciso. Não sei mais o que é esquerda. Não sei mais o que é direita. Não sei mais o que é o centro. Me tornei assim: neutro. Me pergunto se desisti, se morreu em mim aquela esperança, o desejo de lutar um combate, de terçar armas contra o que achava errado. E a resposta é não. Nada mudou. Apenas me dei conta que em cada político existe um desejo de acertar, de fazer coisas boas e levar a população à civilização. E também um desejo de fazer isso para si também. Decidi que (nesta eleição) não posso dividir pessoas que têm sonhos, esperanças e angústias colocando elas num balaio diferente. Todos estamos neste barco Brasil. Se afundar afundo eu e afundas tu. Então o que nos resta é pisar leve, pois não é mais o telhado que é de vidro, agora é o chão que virou vidro. Tendo, portanto, me auto neutralizado, não me interessa a posição do Serra (em quem vou votar) nas pesquisas. Eu “só” vou votar nele, mas se a dona Dilma ganhar, ganhou, está muito bem e o barco seguirá na correnteza social brasileira que ano a ano nestes 53 anos vem ficando cada dia mais turbulenta. Pessoalmente penso que o Brasil não é uma nação. É um desatino. E nós da imprensa, espremidos em 6% da população, nos damos a tarefa de carregar a verdade nas costas. Porém, mais de 90% dos brasileiros não estão nem aí para a verdade. E tem ainda o detalhe de que sendo a verdade aquilo que a maioria diz que é, então nós da imprensa não temos de carregar esse fardo, essa cruz, nem viver nesse sofrimento. Não sei se esse desinteresse alienante tomou conta de mais alguém. Mas da minha parte, posso dizer que é esta a primeira eleição que não me azeda a vida. E a única que não azedo a vida dos outros. Assim, ficamos todos docinhos, docinhos, e bem alienadinhos... E estou me sentindo bem, barbaridade.