quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A gota de urina que faltava

Alan Caldas

Um brasileiro, serralheiro, 28 anos e natural de Rondônia, foi morto a facadas na cidade de Caldas da Imperatriz, em Portugal. A esposa disse que ele urinou na rua. Ao ser repreendido, reagiu e foi morto. A polícia acredita em xenofobia, o ódio contra os estrangeiros.

Fiquei chocado! Quem matou voltou a primitiva justiça pelas próprias mãos. Quem morreu voltou ao primitivo de fazer necessidades fisiológicas na rua.

Não recordo de 40 anos atrás alguém urinar à vista de todos. Até recordo, mas não pessoas. Lembro cães urinando. Macaco. Leão urinando na jaula sem dar a mínima a quem o via.

Lembro seres brutos (que é o oposto de inteligente) urinando ao bel prazer. Não lembro de seres inteligentes e com noção de civilização, urinando sem se importar com quem os vê.

A princípio urinar é ato natural. A bexiga enche e você esvazia. Entretanto, os humanos resolveram civilizar a raça. Estabelecer cultura. Cristalizar comportamentos. E um deles foi “esconder as vergonhas”.

Não é de hoje. Quando Cabral chegou aqui, escreveu ao rei que os nativos “não escondiam suas vergonhas”, andavam pelados, coisa que 500 anos atrás já era “medonho” para os portugueses civilizados. Se o serralheiro tivesse lido a Carta de Pero Vaz de Caminha talvez ainda estivesse vivo.

É fato que nos últimos 200 mil anos o ser humano tenta conter instintos. Constrói casa e sai da caverna, onde o odor de urina era terrível. Usa roupas. E cria lugar para fezes e urina.

Em nome de civilizar a raça, se estabeleceu que a tua mulher não é obrigada a ver o pênis do vizinho só porque ele acredita poder urinar em qualquer lugar a hora que tiver vontade.

Civilização é não se fazer tudo que se quer. Civilização é ter hora e lugar para tudo, para urinar e para matar, e quando um falha e o outro falha, voltamos ao primitivo dos instintos.

Nós, brasileiros (vamos lavar a roupa suja em casa), perdemos a noção de respeito a três coisas:

- Ao olhar do próximo,

- Ao ouvido do próximo e

- Ao comportamento social do próximo.

Por isso, alguns (normalmente os piores de nós) urinam à vista de todos, fazem barulho no ouvido de todos e se mostram grosseiros e primitivos onde quer que estejam.

O comportamento não-civilizado dos imigrantes gera o ódio dos europeus contra os que tentam fazer da Europa o dejeto cultural que fizeram de seus países.

Civilização quer dizer que em Roma se faz como os romanos. E, às vezes, uma gota de urina basta para derramar o copo inteiro da civilização. E o que sobra para todos nós é sofrimento.