Alan Caldas
Temos uma geração na rua que se acha no direito de ser mal humorada.
Uma geração para a qual dar bom dia ou boa tarde parece difícil ou desnecessário.
Não se sabe de onde veio a mania de viver num grupo pequeno e mesmo nesse grupo mínimo ainda não estar ok todos os dias com todos os (poucos) que ali estão.
Gentileza no trato com os que vivemos é parte do protocolo da vida. Ou deveria ser.
Sorrir deveria ser parte do protocolo da vida. Deveríamos dizer “bom dia” e perguntar “como foi a noite?” a todos, todos os dias.
Talvez a maléfica televisão tenha criado uma geração que não acredita em gentileza.
Ou talvez tenha sido Hollywood, com seus filmes onde irmãos estão sempre brigando, e onde pai e mãe vivem numa odiosa e constante tensão pré-menstrual. É como mostra o filme Gran Torino, onde os filhos do personagem principal são insuportáveis, têm mulheres insuportáveis e filhos insuportáveis que vivem uma vida de aparência horrorosa e onde, ao redor, no bairro do pai-avô, só moram pessoas detestáveis.
Pode ter sido Hollywood.
Mas pode ter sido os pais, que permitiram que os filhos não tivessem limites e que por lhes dar liberdade total não lhes ensinaram que se cumprimenta os mais velhos, se respeita os mais fracos, e que gentileza, bom humor e convívio fraterno é como um músculo, que se você não o exercitar ele atrofia.
A ciência já disse que existe um gene da delicadeza. E que esse gene precisa ser exercitado para continuar ativo. Ou ele continuará lá, como mais um dos nossos genes, porém inativo, e mais dia menos dia teremos uma sociedade de pessoas que acreditarão ser normal elas serem grosseiras.
Não é a toa que está na rua uma geração com dificuldade imensa de auto-identificação, que não sabe se é homem, mulher, andrógeno ou o quê.
E o pior: temos na rua uma geração que depende dos pais até os 40 anos. Ou mais.
Uma geração que ensimesmou, que se voltou para dentro de si e entende que tudo que não for seu prazer íntimo não tem razão de ser.
Talvez o amor não vá acabar.
Mas o romantismo deu lugar à vulgaridade, e a gentileza deu lugar a grosseria.
As pessoas se acreditam no direito de ser só elas por elas e para elas. Acreditam não ter responsabilidade coletiva (nem com a família).
Assim sendo, dá medo pensar “onde” chegará a geração que vier desta geração que foi desinstruída na arte do ser gentil.