quarta-feira, 17 de junho de 2009

52 Outonos hoje

Hoje este colunista completa 52 anos.
Nascido em 17 de junho, exatamente às 18h, quando tocava a Ave Maria na Catedral de Vacaria, passaram-se 52 Outonos daquela fria tarde (o termômetro registrava zero grau) daquele gélido fim de Outono de 1957.
O pequeno não chorou.
A parteira deu as tradicionais palmadas e nada de choro. Chacoalhou. E nada. Jogou para cima. E nada dele chorar.
Os olhos da cria nem tinham aberto. Aliás, 52 anos atrás, o recém-nascido vinha ao mundo na penumbra, e assim ficava por três dias longe da luz para “não estragar as vistas”.
A parteira, uma senhora gordinha e de mãos ágeis, fez cosquinha na barriga, bilú-bilú na boquinha e nada da praga chorar.
Já desesperada, e com o pai do lado de fora do quarto, seguido do avô, avó e uma infinidade de tios e tias, irmão e irmãs, a parteira resolveu dar um sustão nele. Chegou no ouvidinho e disse:
- Olha o bitcho! Olha o bitcho!
Mas quê! Nada da peste chorar.
O rostinho começou a ficar pálido. A parteira virou ele de cabeça para baixo. Não pesava nada, era mirrado como filho de passarinho. E, temendo “perder o cliente”, a parteira abriu um berreiro e chamou a avó. Com esse alvoroço todo, logo se espalhou a notícia:
- Nasceu morto!
Médico não havia. Era 1957 e se encontrava um médico na terra e outro no céu.
Então vieram as benzedeiras: dona Maroca era a chefe da reza, mas tinha a Ritinha e a Virgulina. E consta que até a Carmozina-louca saiu do surto por instantes e se acocorando na janela fez gestos e benzeduras, rogando pela saúde do novato.
O frio rachava o pala, rengueando todos os cuscos da vizinhança. E começou um movimento intenso, com a avó tomando a frente do pelotão de salvamento.
A noite veio feia e fria como breu, e a avó, amparada pela sua força, mais a mãe da criaturinha, ficaram ali firmes, só trocando roupinha, aquecendo o peito e massageando, até que o dia amanheceu com o chorinho do rebelde.
Salvou-se por sorte, diziam. Mas a equipe de “emergência” não queria arriscar. Resolveu batizar logo, antes que recaísse e morresse pagão, indo direto ao inferno.
Levaram um pacotinho ao padre Roque, pedindo urgência no batismo. Bondoso como poucos, o padre Roque retirou todas as cobertas, cobertores, baetas, bainhas, fraldas e outros tecidos que protegiam o vivente da friagem (que na certa o mataria) e ao ver a criatura se espantou com a feiúra. Então o padre Roque olhou para a mãe da criatura e disse:
- Dona Ceci, deixe isso ali no cantinho, e se em três dias ele não latir nem miar eu batizo.