Esta história é verdadeira.
O sujeito foi a um baile, encontrou uma moça e sob efeito de cerveja tiveram uma relação que resultou em gravidez.
Diante da gravidez e da cena de choro nos meses seguintes, mesmo não gostando ele levou ela para morar com ele.
A criança nasceu. Mas ele nunca sentiu nada mais que leve atração pela mulher.
Passados dois anos, ele começou a sair sozinho. E ela, pressentindo a perda, novamente engravidou. Isso o deixou furioso, mas o impediu de sair da casa.
Apesar de ficar, ele se sentiu levando o segundo golpe da barriga.
Passada a gestação, veio a criancinha e ele gostou, embora nutrisse má sensação pela mãe.
Agora faz dois anos desse segundo nascimento e ela entrou numa religião de “crentes”.
Essa religião faz retiros, e num desses o pastor mandou ela ir. Ela avisou a ele que iria. E, ao ouvi-la, ele falou:
- Você está avisando que vai. Não está perguntando se deve ou pode ir. Está só me avisando. E aproveito para avisar a você que vou alugar uma casa e vou embora.
Ela se surpreendeu. Mas foi ao retiro.
Faz agora um mês e ele não saiu da casa.
Ficou porque ganha pouco. Se sair terá de deixar a casa (que era dele, mas ela está lá) e ainda pagar pensão alimentícia para ela e as crianças. Somando pensão e despesas dele, mais o fato de ter de mobiliar uma casa para si, a conclusão dele é que não tem como deixar dela.
Ele fica. Moído de ódio. Não suporta vê-la. O corpo dela lhe dá asco. A voz dela para ele é grunhido. Ao ouvir ela fazendo as necessidades fisiológicas no banheiro, ele sente ânsia de vômito. O ronco dela é insuportável aos ouvidos dele. E o ruído dela se alimentando lhe parece um porco comendo.
Tudo nela lhe dá nojo. Ele a detesta, mas não consegue deixá-la. Está preso a ela como a lepra ao leproso.
Continua ao lado dela, numa vida pobre e infame, cheia de rancor e sofrimento que se agiganta dia-a-dia.
Ele não vê solução. Sente amor pelos filhos. Por ela, ódio. Toda fraqueza dele se materializa naquele ambiente infernal.
Seus cabelos branquearam. Seu rosto se transfigurou. Ele não sorri. Nem de piada ele ri. A graça lhe sumiu da alma. Sente-se desgraçado, sem graça.
Ele está livre, mas está preso. Toda vez que sai da porta para fora consegue respirar. Toda vez que entra porta adentro se sente sufocar.
À noite, deitado ao lado dela, ele se afasta o mais que pode. E então, em silêncio e bem baixinho, ele se põe a chorar.