quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Efeito Biguibróda

Brasileiro é reconhecido pela barulheira. Se tem algazarra em aeroporto, é brasileiro.
Sozinhos, calamos. Mas se tem dois ou três de nós, é grito, riso e balbúrdia.
Brasileiro se sente sempre em casa.
Mas em casa fazemos barulho?
Salvo os poucos civilizados, que respeitam o ouvido alheio, brasileiro na média é meio histérico e vive como se fosse o centro do universo.
Reclamamos dos argentinos.
Mas damos de 10 a zero nos “hermanos”.
Nossa “educação para o barulho” começa em casa. Você descobre se o sujeito é um verdadeiro “povo” se, ao passar na frente da casa dele, você lá no outro lado da rua escuta o som da tevê do cidadão. Brasileiro adora tevê com som alto. Senta-se a família toda para ver o Biguebróda e o som fica lá em cima, numa espécie de surto coletivo de surdez.
Um amigo numa chácara tinha uma vizinha a 150 metros dele que o obrigava ouvir “com ela” a Rádio Gaúcha. Ligava o rádio bem cedo (e bem alto) e o som passava pela mata, atravessava a rua, subia os montes e ia estourar os ouvidos dele, das 6 da manhã às 19 horas. Aí ela desligava o rádio e ligava a tevê, e ele tinha de escutar todas as novelas “da Grobo”.
É no restaurante que se descobre se o sujeito é realmente povo. Você está degustando verduras, legumes, carnes e amidos, sorvendo vinho e curtindo o ambiente, aí senta na mesa ao lado um “povo”.
O povo senta e já toca o celular dele. E o povo atende e fala alto, troca ideias, dá sugestões, diz o que gosta e não gosta, tudo em voz tão alta que o restaurante inteiro participa da vida íntima do sujeito.
Antes só homem era mal educado o suficiente para atender celular em restaurante. Agora, o efeito Biguibróda se expandiu e temos mulheres acreditando que o ambiente sonoro dela não se reduz ao ouvido dela, mas ao de todos no restaurante. Ou no ônibus. Ou na fila do banco. Ou seja lá onde estiver.
O Biguibróda levou o “povo” a crer que pode viver no coletivo sua vida íntima. Que é bacana ser “bem visível”, bem espaçoso. Então, mesmo não tendo nada a ver com a vida sexual, profissional, afetiva ou social, dos outros, nos obrigamos a ouvir o que os outros pensam.
O máximo do efeito Biguibróda são os carros tunados arrasando ouvidos altas horas da madrugada.
O espaço é curto, mas dá para concluir dizendo que não precisa ler Freud para saber que esse povo barulhento e sem modos tem um complexo de rejeição tão grande, tão imenso, que vive “aos gritos” para tentar ser ouvido ou visto. É a forma que encontram de pensar que são aquilo que acreditam ser mas ninguém reconhece.