quinta-feira, 15 de outubro de 2009

De braços com Walt Whittman

Houve tempo em que as pessoas gostavam de poesia, do deleite que as ideias contidas nas palavras podem nos trazer, essa espécie de gozo intelectual, que é um prazer indescritível. E como as palavras, assim o disse Sir William Shakespeare, “podem esconder outras palavras”, hoje publico aqui um poema desregrado do imbatível Walt Whittmann, que em sua doçura-violenta quase nos violenta com tantos significados em tão poucas palavras, deste que é um de seus mais significativos poemas e que se chama “A ti, causa antiga”. Publico-o, assim, cheio de receios dos ódios e amores que toda poesia expressa. E por ter aprendido com Luiz de Camões que “felicidade não existe, pois o que existem são momentos felizes”, mando ver, e aguardo, em Machado de Assis, “que a terra me seja leve”.
E você, bom, você me faça o favor: Leia saboreando como quem bebe um vinho antigo e de fina safra, cujo tempo foi passando e equilibrando-o dentro da garrafa, tal qual nós, dentro desta garrafa chamada corpo, fomos igualmente nos equilibrando. Boa leitura!

A ti, causa antiga!
Tu, incomparável, apaixonante causa boa,
Tu, implacável, impiedosa, doce ideia,
Imorredoura através dos tempos, raças, terras,
Após uma triste e estranha guerra, grande guerra por ti,
Esses cantos por ti, a marcha eterna por ti.
Tu, globo de muitos globos!
Tu, ardente princípio! Tu, bem guardado gérmen latente!
Tu, centro de tudo!
Em torno de tua ideia a guerra gira,
Com toda a tua irada e veemente dança das causas,
Estes versos recitados por ti - meu livro e a guerra são um,
Fundidos em tal espírito e no meu, com a disputa articulada em ti,
Como uma roda sobre seu eixo, gira este livro, inconsciente de si mesmo,
Em torno de tua ideia.