Não é que esta Primavera esteja mais chuvosa. Nós é que estamos saindo dela e ao entrar no Outono de nossas vidas esquecemos que “é preciso a chuva para florir”. As chuvas sempre existiram na Primavera. Mas antes estávamos dentro dela, éramos primaveris no Ser, e quando você “é” uma coisa, nada que seja dela incomoda você.
Mas veja, leitor, que desgraça: já não estamos mais na nossa Primavera. Ainda há flores em nós, é certo, e temos o aroma dos grandes jardins impregnando nossas narinas. Mas são resquícios dos aromas dos 25 anos que vivemos como se a Primavera fôssemos. Então, um dia, e sob o embriagante efeito do tempo que passou, as flores, os aromas das flores, e suas cores, foram começando a ficar distantes de nós. E nós, sem saber, fomos entrando em nosso Outono.
Não é uma tragédia. Os primeiros 25 anos de qualquer um de nós são nosso verão. E, então,vêm após esses 25, outros 25 anos de Primavera, e não há nada mais primaveril, mais encantador, perfumado e doce, mais cheios de luz e sombras, que a juventude, esse período da vida que vai dos 25 aos 50.
Mas aos 50 é inevitável que o Outono venha, não é mesmo. Ele vem devagar. E vai se anunciando já lá pelos 40, numa pequena crise existencial. Depois, nos 45,você sente uma vontade imensa de correr, de mudar, de trocar o que faz, de viver, enfim, de “ser”. E essa sensação de abandono pessoal de si mesmo, de ter deixado “algo” para trás, de não ter “vivido”, nem amado, nem corrido “todos os riscos”, vai alfinetando nossa alma, ano após ano. Até que um dia você acorda e lá está você, nos cinquenta.
Sim, sim,você ainda não é “cinquentão”, na acepção pejorativa do termo, pois a tecnologia avançou e hoje alguém de 50 é quase tão jovem quanto alguém de 30, cinquenta anos atrás. Mas você bateu na casa do cinco ponto zero.
O espelho denuncia esse começo de Outono em nossa vida. E nossas atitudes diante do mundo se transformam. Se não cuidar, você vai detestar todos que estão ao seu lado, pensando que são “um bando de burros”. E, sobretudo, você corre o risco de não se dar conta de que essa “consciência toda” que você tem se deve ao fato de ter vivido toooooodos esses 50 anos.
Depois que o Outono apresenta seu equinócio, você vai vendo o mundo com outras cores, pois no Outono as folhas caem e elas só caem quando a cor já esmaeceu, não é mesmo?
E ano após ano você vai percebendo que não está à beira da morte, pois a morte só vem “lá no Inverno”, e ainda faltam 25 anos para o Inverno da sua vida se mostrar.
Então, finalmente mais culto e experiente, portanto mais inteligente, você se apercebe que o Outono é a Idade da Razão. E você, que era apenas magro, alto e metido, começa a ver que ficou assim, digamos, “interessante”. As pessoas olham e falam com você de forma mais clara, mais respeitosa, mais acariciante.
Conheça um segredo meu: certa vez, quando adolescente, eu tinha decidido perseguir a Primavera, ir andando aonde a Primavera fosse. A Estação vai se apresentando aqui e ali, e eu pretendia ir me mudando de cidade em cidade, Estado em Estado, país em país para ir vivendo numa Primavera sem fim.
Hoje não penso assim.
Hoje penso que o elixir da juventude eterna não está na Estação, mas na compreensão de que o tempo nos arrasta em seus braços com a finalidade exclusiva de nos fazer ver o quão bela, romântica e excitante é esta vida. Esteja ela na Estação que estiver.