Alan Caldas
Com frequência leio reclamações contra o Postão. É gente que ficou “horas”. É pessoa desabafando que “nem olharam” ela. É povo reclamando do remédio. São os que esperam exames. São os que querem cirurgia.
Respeito as opiniões, mas reclamar do Postão é coisa de mal agradecido. É o sujeito que reclama da comida porque nunca teve fome, só teve apetite.
Nasci (em 1957) numa época sem saúde pública. Tinha médico pago, com dinheiro ou "Deus lhe pague" (e depois se mandava galinha, ovelha, ovos ou o que se tinha, mas era pago).
Depois, criaram Posto de Saúde. Se ficava na fila. E o médico só atendia duas vezes por semana: Uma era o povo em geral, na segunda-feira, e na terça-feira era o dia das meretrizes.
Depois veio dentista grátis.
Finalmente, já com vários Postos, o Presidente Sarney, impulsionado por um empurrão nas costas dado pelo doutor Ulysses Guimarães, sancionou a nova Constituição Federal, promulgada pelo Congresso Nacional. E ali se socializou a saúde e se criou o SUS.
Em Dois Irmãos, já em 1992, o prefeito Arnildo Mallmann criou o Postão. E de lá para cá, nunca se investiu tanto dinheiro em saúde. São milhões e milhões de reais da prefeitura todos os anos jogados na saúde.
Como resultado, temos incrível número de médicos, odontólogos, enfermagem, prédios, veículos, ambientes e atendimento.
Meu Deus, quanto atendimento! Quase 50 mil atendimentos por ano, numa Dois Irmãos que tem apenas 27 mil habitantes.
Até se dá remédio!
Até se busca gente em casa de ambulância por problemas que, quando nasci, nem me levariam ao médico!
E apesar de se fazer tanto pela saúde dos outros, vê-se desses “outros”pouquíssimo reconhecimento em relação ao que se lhes proporciona de facilidades na saúde física e mental.
Tenho vergonha de usar a saúde pública. Sou desses que acreditam estar tirando o lugar de quem necessita mais que ele.
Sou dos que pensam ter de aguentar “no osso do peito”. Uma noite tive crise renal e queriam chamar a ambulância. “Nada feito”, gritei. “De ambulância só me levam morto, pois se sair daqui vivo e de ambulância ninguém mais vai me respeitar”. E segurei cólica renal tomando aspirina.
Bah... me lembro até hoje! He, he, he...
Dias atrás tive um cisto e fui lá. Depois fiz curativos. E tudo grátis. Um dia voltei com chocolates e dei presente ao médico e sua assistente. “É pelo grande trabalho profissional que recebi aqui”, eu disse. E vi alegria naquelas pessoas que dão tudo de si para diminuir nossa dor.
O que falta ao brasileiro não é saúde. É gratidão!