segunda-feira, 13 de julho de 2009

Apenas pontos de interrogação

O amigo Victor Schuck nos disse, certa vez, que sempre que se faz o bem a alguém se deve em seguida levantar os punhos e se defender, pois é certo que ele vai nos atacar.
O maior exemplo é a Bíblia. Quem já leu ela meio que do início ao fim, percebe que aquela nada mais é que a história de um pai desesperado em busca do filho que se perdeu. No fundo, a história de que alguém que fez o bem, dando-nos a vida e mesmo um paraíso, e que em troca recebeu traição, cinismo, rancor e total desobediência ao preceito básico de amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.
Numa família não tão grande como a de Deus, uma família qualquer, bem pequena, como a nossa ou a sua, dá igualmente para ver bem claro esse desamor que o amor gera. Apesar de que "no futuro" tudo se ajeita e mais ou menos volta ao curso normal do bem-querer, os filhos bem demonstram a reação de rejeito que dão aos pais em troca a ação de amor que eles lhes dedicaram na infância. É assim que o mesmo menino que aos 7 anos acredita que o pai é um herói imbatível, aos 12 não quer que o pai o largue na festa, aos 18 não consegue ver no pai nada mais que um bolha, aos 23 tem certeza de que o pai é um mal-informado, aos 32 pensa que o pai está atrasado e caduco. O tempo ensina, e esse mesmo menino aos 42 se dará conta que o pai é sábio e aos 50, quando ele precisar de uma palavra genial que o pai certamente lhe daria, ele vê, angustiado, que o pai já morreu e não está mais ali. E é ele, então, que começa agora a sofrer, do filho, o mesmo amor, desamor e reamor que gestou pelo seu pai.
Numa cidade também se vê essas relações, na vida comunitária. Quantas pessoas que criaram clubes, que fundaram associações, que ergueram partidos, que abriram os vales nos quais ergueria-se a história de uma cidade, acabam, com o tempo, sendo desrespeitados, sendo massacrados pela arrogância de mais jovens que desejam superar o passado e o fazem, sem saber, massacrando o sentimento dos que vieram antes deles e traçaram o caminho e abriram as picadas na quais hoje colocou-se a infra-estrutura e o asfalto pelo qual seus carros modernos passam.
Porque escrevemos isto?
Sei lá!
“São perguntas tão tolas de uma pessoa. Não ligue. Não ouça. São pontos de interrogação”, diria o Gonzaguinha. Só isso. E nada mais.