quarta-feira, 8 de julho de 2009

Memória frias e úmidas de Portugal

Vinte e quatro anos atrás, em 1985, radiante de juventude chegamos em Lisboa, Portugal, a porta de entrada da Europa.
Nas ruas limpas e clima temperado, viam-se restos preservados dos nossos conquistadores. E conviver com portugueses naquele "pós Salazar" foi uma experiência inesquecível.
Cinemas e teatros tinham cortina, lanterninha e baleiro. Soava gongo, avisando que o filme começaria. E quando ia pela metade, a luz acendia para se esticar as pernas, ir ao banheiro e descansar os olhos. No hall vendiam bebidas. E baleiros cruzavam pelas fileiras, oferecendo doces e pipoca, nos 10 minutos do intervalo. E então a película recomeçava.
A televisão praticamente só apresentava programa educativo, e “fechava” às 23 horas. Além disso, 2 dias por semana não transmitia à noite, que era "para a família poder conversar".
Não estava lá a grande população africana que hoje se aglomera no Rocio, o bairro “gótico” (leia “antigo”) de Lisboa. Dinheiro era o Escudo. A democracia fora reconquistado com cravos e não balas, e lá estava o Presidente Mario Soares, a provar que só o amor constrói.
Havia glamour por toda extensão do nosso descobridor.
A comida excelente era repleta de frutos do mar. Bebida era vinho. Típico como o verde ou licoroso como o do Porto, maravilhoso na sobremesa. Bagaceira é a cachaça deles, feita do bagaço da uva, mas é bem rara na maioria das mesas portuguesas.
No vestir há o elegante trajar europeu, não tão arrogante quanto o francês nem tão despojado quanto o inglês.
Na cultura, gigantes saídos do Alentejo para “navegar mares dantes nunca navegados”.
No falar um sotaque bonito, diferente do nosso português com açúcar, como eles dizem.
Mulheres e homens são pequenos em estatura e discretos.
A portuguesa não é tão expansiva quanto a italiana, que fala pelos cotovelos, ou a espanhola, que dispara palavras sibilantes, nem tão calculista quanto a alemã ou inglesa. Recatada e discreta, a portuguesa raramente olhará você dentro dos olhos.


* * *
Friozinho hoje, não é? Hê, hê, hê...


* * *
Várias vezes ele pensou viver em Portugal.
Mas a vida é equação estranha: quanto mais se vive tanto mais perto fica o que estava longe e tanto mais longe fica o que estava perto.
Por razões desconhecidas, há saudade de Portugal em dias frios e úmidos como este. Mas o homem é o seu silêncio. E resta findar citando Bernard Shaw, quando ele diz que:
- Você vê as coisas como elas são e pergunta: por quê? Mas eu sonho com coisas que nunca foram e pergunto: por quê não?