terça-feira, 21 de julho de 2009

Uma dor inexplicável

A tragédia que se abateu sobre os moradores do Travessão, Marisa e Joel, que perderam a vida no desabamento do edifício em Capão da Canoa, é descomunal.
Fui ao velório e enterro, não porque conhecesse o Joel ou a Marisa, mas por que conhecemos a Rudaia, filha do amor da Marisa com o Flávio Scholles.
Quando o Flávio e a Marisa se separaram, a Rudaia ficou mais próxima do Flávio. Ela estava sempre com ele, “pai faça isso”, “pai faça aquilo”, “pai não fume”, “pai não beba”... e cuidava dele como se fosse a mãe do nosso artista-mor.
Era tanto zelo dela por ele, que brincávamos dizendo que não foi ele quem cuidou dela, e sim ela que cuidou dele.
Nos anos 80 não era raro o Flávio jantar lá em casa, e quase sempre lá estava a Rudaia, com cabelinhos encaracolados de princesa. Era uma princesinha, a Rudaia, e curiosa que era, vivia mexendo nas coisas, subindo em sofás, vivendo sua infância ali por perto de nós.
Depois cresceu e se tornou uma moça linda. Ao casar, deu ao Flávio uma jóia preciosa, a neta Marina, que correndo pelo atelier deu à vida do vovô Flávio outra dimensão e alento. Coincidência ou não, o traço expressionista do Flávio ganhou formas mais suaves e cores mais alegres. Não sei como foi com a Marisa, mas suponho que com a chegada da neta, ela tenha conseguido dizer com mais vigor “eu te amo”, para a filha que sempre a amou.
Hoje pela manhã, no velório da Marisa e do Joel, na Capela Mortuária do Travessão, abraçamos a Rudaia com o mesmo carinho com que a levávamos pela mão, quando menininha. E o soluço de lágrimas do sentimento dela, doeu profundamente em todos nós.
Agora à tarde, ao vê-la levando a mãe ao jazigo, uma dor terrivelmente doída se abateu sobre todos nós que a conhecemos desde tão cedo. O Flávio, com braço de pai e amigo a consolava, mas era em vão. Não há afago que aplaque a dor de uma mãe perdida. E nada que se diga ou faça, ameniza o sofrer. Apenas o tempo, senhor da razão, fará esse milagre.
O tempo e a esperança de que um dia reencontraremos os que partem e nos deixam nessa silenciosa solidão de lágrimas, como a que se abateu hoje sobre a Rudaia e seu irmão William.
Que Deus a abençoe, Rudaia. Você fez tanto bem ao pai, quando a separação dele veio. Agora que você se separou de alguém que tanto ama, certamente a misericórdia do Criador consolará você. Tenha força. Tenha fé. E certeza de que você sempre terá a nós.