quinta-feira, 30 de julho de 2009

O desabafo do Rivelino

O Rivelino está lançando um livro onde conta sua jornada como atleta.
O que reavivou o Rivelino não foi o fato de ter sido o espetacular jogador da Copa de 1970.
O que o fez vivo outra vez foi a entrevista no lançamento do livro. Ele disse:
- Comprem esse livro, por que estou precisando pagar a pensão alimentícia!
Que coragem tem esse homem!
“Tenho de pagar a pensão”, ele disse. E no meio da entrevista ainda saiu com esta:
- Daqui a pouco vão dizer que sou responsável pela Gripe Suína.
E, ao dizer isso, arrematou:
- Eu NÃO SOU o responsável!
E, continuando na série do que “ele não é”, o Rivelino disse:
- Não sou responsável pelo Senado, não sou responsável pelo aquecimento global, não sou responsável pelos fracassos do mundo, pela AIDS, pelo câncer.
Quase aos gritos, Rivelino disse:
- Não sou nada responsável por nada disso.
E finalizou:
- Só sou responsável por este livro. Comprem este livro. Estou precisando vender para pagar a pensão!

* * *
Sinceramente, até havia pensado que o Rivelino tinha morrido. Dos que jogaram naquela Copa hipnotizante, o único nome que lembro era o dele. Talvez um Jairzinho (teve esse?). E Tostão. Mas acaba aí o rol de notáveis.
Notável mesmo é o Rivelino.
Talvez o leitor não tenha a idade dele, que está nos 60. Ou a minha, 52. Mas nessa idade e tendo vivido mundos e fundos, feito gols e engolido frangos, sorrido e chorado, tomado tantos porres homéricos e curtido longas abstinências, já tendo estendido a mão e retirado a mão, já tendo precisado de auxílio e ter (ou não ter) recebido, já havendo pego quase todos os vírus da gripe, sentido todas as dores de cabeça, enfiado tantas vezes a cara no muro, não é anormal que tal qual Rivelino o sujeito comece a dizer em voz alta, quase gritando, que NÃO É o responsável por tudo que de podre, de pior, de detestável, de inconfesso e vicioso existe na terra.
Não imagino a razão do Riva ter feito esse imenso desabafo de público. À porta fechada, na surdina e no silêncio, se compreenderia. Mas de público, não.
Tem de ter sido duríssimo o golpe que o nosso “pateador” Rivelino sofreu. Pelas costas, certamente. Uma facada, quem sabe. Uma bolada com a força que ele tinha no pé, talvez. Sei lá. Mas certamente foi algo terrível.
E esse desabafo do Rivelino merece amparo. E vou hoje mesmo procurar o livro dele.
Afinal, vai que o homem seja preso por não pagar pensão só por que deixei de comprar o livro dele...