segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Não merecia tanto

Como todo filho de descendentes espanhóis e portugueses, amava profundamente meu pai. Ele era homem simples, sem o vigoroso lume das letras, mas com um coração imenso e sensibilidade à flor da pele. Recordo dele como herói, me levando no varão de sua bicicleta com o vento soprando meus cabelos de criança.
Depois cresci. Veio a adolescência. Rebeldia. Prepotência. E no final da vida dele, que foi curtíssima, pois faleceu aos 78 anos, adorava ir lá em Vacaria e ver a bicicleta dele estacionada no Café Avenida, que ficava na esquina da praça central. E ele morreu.
O tempo andou e depois de 46 anos acabei virando pai também. E um dia, abraçando o pequenininho, senti uma sensação incrível. Ele tinha dois anos e me apertava com seus bracinhos de forma tão forte e carinhosa, que mergulhei no tempo e senti exatamente como era quando meu pai me abraçava dessa mesma forma. Nunca tive tanta saudade do meu pai!
Foi incrível. Havia naqueles bracinhos me apertando e nos meus que o abraçavam, a mesma ternura, amor, respeito, esperança e alegria que eu tinha ao abraçar o meu pai e ser abraçado por ele, quando tinha dois anos também.
Sou um homem normal. Sou réu confesso de muitas coisas ruins e algumas poucas boas. Saí de casa muito cedo, acreditando ter uma razão que, sei agora, não me assistia.
Andei. Amei. Briguei. Construí. Destruí. Fiz algumas ações de bondade. Outras tantas de iniqüidades não desejadas. Não conquistei fama nem a fortuna do dinheiro. Talvez eu nunca vá ter um castelo. Mas não importa. Nada disso importa quando olho aquele pequenino ao meu lado, dizendo que me ama tal qual eu dizia que amava o seu Alan Caldas.
Nos lugares onde estive. Nos medos que passei. Nas coragens que descobri. Nos braços. Nos teatros. Nas grandes avenidas. Nos hotéis, praia, países... Nada disso se compara a experiência incrível de acompanhar o desenvolver da inteligência e do amor de um pequenininho.
Não sei se o seu Alan pensava isso, mas eu certamente não merecia alguém tão amado e querido quanto o seu Adam Johannes.dá nojo.
A história relata guerras e morticínios, sofrimentos e dores, momentos de escuridão na humanidade e que sempre são causados por seres semelhantes a esses, aqui citados.
É incrível como florescem neste planeta pessoas desvirtuadas da criação, para as quais a palavra do Mestre dizendo "amai-vos uns aos outros" nada significa.
É impressionante como cresce a tribo dos que parecem ter chegado a terra usando a escada que (segundo John Milton) Lúcifer mandou construir para trazer de lá para cá seus asseclas e levar daqui para o Inferno as almas por ele conquistadas.
Por isso estamos descrentes do Estado como instituição. Já não cremos nos políticos. Já não acreditamos na justiça. Já não cremos nos promotores da lei nem nos executores dela, muito menos em seus criadores.
Nunca antes o Rei esteve tão nu quanto agora.