quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Por onde segurar um homem

Analuiza sabia que o Ateneu estava com a razão: “a humanidade se divide em gastronomia e sexo”, ele dizia. Mas Analuiza não aceitava, porque o homem como raça não se iguala aos seres brutos aos quais o Criador não deu a luz do raciocínio.
Ateneu sorria, dizendo que com ou sem “a luz divina do raciocínio”, o que o ser humano quer é sexo e comida; e acrescentava:
- E um sempre leva ao outro.
Analuiza não se deu por vencida. Está bem, pensava ela: o alimento retroalimenta o sexo e este retroalimenta a existência, e é isso que gera a explosão demográfica que põe cada vez mais seres humanos no planeta. Mas isso não nos faz iguais aos “outros animais”, ela pensava. E resolveu desafiar o Ateneu, convidando-o para um jantar sensorial, um verdadeiro brinde aos cinco sentidos e ao sentido da cultura.
O Ateneu, sempre com pensamento fixo de comida = a sexo e vice-versa, aceitou o convite.
Ao chegar a casa da Analuiza encontrou um banquete, sendo que já no prato de entrada a Analuiza harmonizava sabores com espumante.
O Ateneu a olhava, maravilhado, enquanto degustava pequenas porções que, embebidas pelo espumante, iam criando borbulhas em sua mente. E num instante de euforia racional (que eliminava todo seu determinismo cartesiano de comida=sexo+comida=sexo... e assim por diante) chegou a citar Dom Perignon, que ao beber o primeiro gole de champagne teria dito:
- Estou bebendo estrelas.
Analuiza sorriu e acendeu as velas sobre a mesa, com toalha branquíssima e pratos e talheres alvos, e seguiu nesse que a partir dali poderia se chamar “A festa de Babet”.
O Ateneu no início ainda fazia discursos racionais. Mas logo foi sendo tão cooptado pelos sabores e aromas, e entregou-se de tal forma à satisfação gastronômica, que suas recordações infantis começaram a vir à tona e, antes da sobremesa, ele até já cantava canções de ninar, lembrando da mãe que falecera quando ainda era pequenino.
Na sobremesa, e já tendo Analuiza harmonizado cada um dos três pratos principais com vinhos especialmente escolhidos para expandir o sabor de cada alimento, o Ateneu a olhava e a via como a mulher que habitara por tanto tempo seus sonhos. Não era real, ele pensou, e no entanto ali estava ela, viva, materializada, em carne, osso, alma e... comida.
* * *
Fui padrinho do casamento do Ateneu. E no altar, olhávamos a Analuiza com aquele sorrisinho maroto. E tivemos todos de concordar: homem você segura mesmo é pela barriga!