Não dá para entender a lógica que move o Poder, a dinâmica do sistema que o faz realinhar-se. É o que está ocorrendo em Dois Irmãos, no Poder Judiciário.
A juíza Angela Dumerque está transferida para Marcelino Ramos. Sua saída deixará o Fórum sem juiz fixo, e outro juiz virá aqui, como substituto, julgar na comarca na qual não mora e da qual desconhece a dinâmica sócio-econômica e cultural.
Esse juiz substituto vai realizar a proeza ficcional que tanto atrai as mentes jurídicas: o julgamento pelo “mundo dos autos”, que, traduzindo, quer dizer que o que não está nos autos do processo “não está no mundo”. É a máxima cartorial que leva o juiz a tornar-se um completo alienado do mundo que o cerca, para, com base no que lê, dar seu parecer e decidir sobre a vida de pessoas que não vivem no fictício mundo dos autos e sim no mundo real, do qual o juiz obriga-se a ficar pateticamente alienado.
O bizarro é que a juíza deseja ficar. E fez de tudo para continuar. Acompanhamos a guerra jurídica dela nos bastidores, e vimos que pela primeira vez Dois Irmãos tinha um juiz que se decidiu por ficar entre nós.
Este jornal viu surgir a Comarca de Dois Irmãos, quando a cidade “se emancipou” (como Comarca) de Estância Velha e o juiz Milton Augusto Moojen Júnior ficou substituindo aqui. Depois veio a doutora Ana Lúcia Carvalho Pinto Vieira (a mãe da deputada Manoela, do PCdoB), a Maria Isabel, Newton Fabrício, Sonali, Jonatas Pimentel e Gustavo Diefenteller, entre outros, e muitos substitutos entre os que não esquentavam banco.
Foi assim também com promotores, até chegar Wilson Grezzana, que se tornou “o” promotor de justiça da cidade. E parecia que o Judiciário, após muitos juízes que vinham e sempre estavam com o olho fora daqui, ao chegar a doutora Angela tinha encontrado seu caminho, pois ela queria ficar.
Queria. Mas não deixam.
Por que não deixam ficar?
Vai saber!
É a equação do Poder; e é insolúvel, pois quem decide sobre nós não está aqui, não sabe quem somos muito menos o que queremos.
Somos curatelados e tratados pelo Poder como incapazes. Maiores incapazes.
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Na faculdade de Direito brincávamos com os professores, muitos dos quais eram juízes, dizendo que eles, os juízes, pensavam ser Deus.
Hoje dá para ver claramente que juiz realmente pensa ser Deus. Mas os desembargadores, que no jargão jurídico são chamados de “os velhinhos do Tribunal”, não pensam, eles têm certeza de que são. E Dois Irmãos está provando isso cabalmente...